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O caminho da iniciação à vida cristã

“Ninguém nasce cristão, nós nos tornamos cristãos” (Tertuliano)

Em artigos que escrevo tenho insistido na questão da iniciação à vida cristã, procurando dar ao leitor elementos chaves para essa compreensão. Num primeiro momento, escrevi sobre a descoberta dos sacramentos que perfazem o contexto dessa iniciação. Pelos sacramentos, os que serão iniciados na fé cristã, são introduzidos no mistério através de uma preparação que muitas vezes deveria ter caráter litúrgico. Por isso é que num segundo momento falei sobre a experiência da celebração do Dia do Senhor  na comunidade de fé e ao mesmo tempo orante. Esta experiência faz com que os iniciados sintam aquela mesma experiência que tiveram os primeiros discípulos ao avistarem o Ressuscitado e dialogarem com ele. Lembramos os dois discípulos a caminho de Emaús (Lc 24,13-35). Depois, com o foco na Eucaristia, que é ação de graças, banquete, ceia, reunião, como espaço aberto para a intelecção e absorção da Palavra, seja pela escuta, seja pela comida, como meio para atingir o existencial humano, escrevi sobre a inteireza do ser, isto é, a sua totalidade humana, com todos os seus sentidos que participam da ação ritual e o faz adentrar no mistério, na intenção de transformar-se em “perfeita oferenda” ao Pai. Sim, a Eucaristia é a grande e principal responsável nessa atribuição. Num outro momento, descobrimos que é necessária uma descoberta de uma reflexão mais profunda, e nisso pode ajudar a catequese litúrgica, por meio da mistagogia (palavra que pode ser traduzida como ‘conduzir para dentro do mistério’).

Todos esses textos, penso que serviram de ‘aperitivos’ para a compreensão do que agora quero dizer. Contudo, nada disso será entendido e absorvido pelo leitor se não se levar em consideração um processo, muito antigo, mas que agora se faz atual em nossa realidade eclesial. Trata-se de falar do catecumenato, que se traduz em processo de iniciação dos primeiros cristãos nas comunidades de fé. Na verdade, as primeiras comunidades cristãs, utilizando-se deste processo, iniciavam outros cristãos, tendo como princípio a escuta da Palavra, na Liturgia. Era assim nos primeiros séculos, no início da Igreja. O catecumenato era como que uma “porta” que as primeiras comunidades cristãs encontraram para acompanhar o processo de conversão dos outros cristãos que queriam aderir à fé e assim poder participar da vida comunitária.

Hoje, podemos traduzir este processo como que sendo um meio pedagógico pastoral para se atingir a maturidade na fé, por sua vez, uma nova identidade cristã. Tertualiano, um estudioso Padre da Igreja antiga, dizia: “ninguém nasce cristão, nós nos tornamos cristãos”. Por isso é que a realidade nos  preocupa. O fato de que muitos batizados ainda não se conscientizaram de sua vida cristã, ou seja, o sacramento que fora recebido quanto criança, apesar de ter produzido seu efeito por sua própria natureza, não desembocou numa vida cristã adulta e plena. Por qual motivo isso acontece tão frequentemente? Ora, os sacramentos têm sua função, mas é necessário que ele encontre abertura e disposição de quem o recebe para que ele possa se desdobrar em frutos na vida de quem o acolheu. Infelizmente, muitos cristãos sequer conseguem se conscientizar do significado dos sacramentos em sua vida. Por exemplo, ainda há na mentalidade do povo um antigo costume de que se batizam as crianças para não morrer pagãs. Essa mentalidade precisa ser superada, e deve substituída pela teologia dos sacramentos.

Para fundamentar esta compreensão do processo da iniciação cristã, recorremos então aos textos bíblicos. Um bom modelo para isso são as cartas de São Paulo dirigidas às várias comunidades. Ele, na Carta aos Efésios, lembra que “devemos nos despir do homem velho e revestirmos do homem novo”. Estaria São Paulo já chamando a atenção em sua época para um fato bastante atual? Cerca de oitenta anos antes, no relato dos evangelhos, Jesus já falava com Nicodemos, um sacerdote do templo, sobre um ‘renascer de novo’. Nicodemos, não compreendendo o que Jesus queria lhe dizer, perguntou como é que ele, já idoso, poderia voltar à barriga de sua mãe. Nas duas passagens vemos a seguinte compreensão: Éfeso, a quem São Paulo se dirige, era uma cidade grande e culta, rica em lã e tecidos, além de possuir um centro comercial muito importante. De lá saem missionários que vão evangelizando as redondezas. Por isso a preocupação de São Paulo. Nicodemos, sacerdote do templo e perito em leis, principalmente a Lei de Moisés, apesar de sua experiência de vida, ainda não tinha compreendido, traduzido e aplicado a Lei em favor da sua vida e da dos outros. Ora, tanto Jesus como Paulo queriam tratar o aspecto da conduta sob o prisma cristão.

Em cada um dos contextos bíblicos citados acima, assumir o batismo significa assumir a sua fé e participar de uma comunidade de fé, o que podemos traduzir como radicalidade total, ou seja, atribuir-se de uma identidade. Esse era o ser cristão (= ser outro Cristo). São Paulo encarou isso com tanta determinação que chega a afirmar: “já não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim”. E hoje, é diferente? Como podemos fazer a experiência de Jesus e de São Paulo em nossas vidas e em nossas comunidades cristãs?

Categorias:Espiritualidade
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