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OFÍCIO DIVINO DAS COMUNIDADES (I) – Uma Liturgia das Horas

As imagens de luz e trevas voltam nossa atenção ao Mistério da hora, em relação às “Horas de Jesus”, e nos faz descobrir dentro das contradições do nosso próprio tempo a ação amorosa do Pai, que faz brilhar em nosso mundo a luz de Jesus Cristo, nosso Salvador.

por Penha Carpanedo, pddm (extraído das Fichas de Liturgia da CNBB, nº 55)

O costume de consagrar a Deus as primeiras horas e o findar de cada dia, é comum às religiões, está presente em tradições indígenas e é herança do judaísmo, de onde vieram Jesus e as primeiras comunidades cristãs. Nos primeiros séculos era comum, ao lado da Eucaristia celebrada aos domingos, as comunidades cristãs se reunirem, sobretudo de manhã e de tarde, para fazerem memória da páscoa de Jesus, cantando salmos e hinos, escutando leituras bíblicas, e elevando a Deus preces de ação de graças e de intercessão, com plena participação do povo. Esta maneira de rezar da Igreja se tornou conhecido com o nome de Ofício Divino.

O nome “Ofício” indica trabalho, serviço: o mesmo sentido da palavra liturgia (urgia = ação, serviço). Podemos dizer que todo trabalho é de Deus, todo “ofício” é “divino”, toda a nossa vida é uma liturgia, se o que somos e fazemos têm a ver com o projeto de Deus, com a fé em Jesus e com o seu Espírito. Mas convencionou-se chamar Ofício Divino, especialmente, a celebração comunitária nas diversas horas do dia, para louvar e dar graças a Deus pelo seu trabalho no mundo, sobretudo pela obra da redenção que culminou na morte e ressurreição de Jesus Cristo, e para interceder que venha o seu reino.  

Segundo esta tradição, em cada amanhecer, à luz do sol nascente, unindo-nos à oração de Cristo ao Pai, nos ligamos à sua ressurreição e sob esta luz começamos o dia, no louvor e na súplica. Ao chegar a noite, encontramo-nos vigilantes, no brilho da luz que nunca se apaga, para dar graças a Deus pelas dádivas recebidas, colocar em suas mãos as preocupações que ficaram do dia que passou e acolhermos o repouso e a paz que o Senhor nos dá!

Com o passar do tempo, o Ofício Divino deixou de ser do povo, e, fora as experiências dos mosteiros, perdeu, em geral, seu caráter comunitário e sua relação com as horas do dia. Com isso o povo perdeu a referência bíblica e litúrgica da espiritualidade obrigando-se a valer-se das devoções. No lugar dos salmos (são 150!) lançou mão do “rosário” com suas 150 ave-marias, ou do “terço” (= um terço do rosário) com suas 50 ave-marias; no lugar de uma celebração nas horas do dia, adotou a oração do ângelus, de manhã, de meio dia e de tarde. O Ofício da Imaculada Conceição como hoje conhecemos no Brasil, é o conjunto dos hinos do antigo Ofício da Virgem Maria: a única coisa que restou para o povo de toda a riqueza da Oração da Igreja.

A Constituição do Concílio Vaticano II sobre a liturgia, a Sacrosanctum Concilium, reafirmou ser o Ofício Divino ação comunitária “para consagrar, pelo louvor a Deus, o curso diurno e norturno do tempo” (SC 84), pertencente a toda a Igreja, e não somente ao clero (SC 84 e100). Também enfatizou que o Ofício Divino é oração que o próprio Cristo dirige ao Pai quando a Igreja, ora e salmodia (cf. SC 7 e 83). Chamou a atenção para o Ofício Divino como “fonte de piedade e alimento da oração pessoal” (SC 90).

Com base nestas orientações houve uma reforma do rito eliminando complicações e acréscimos que foram introduzidas ao longo dos séculos, tornando-o apto a ser celebrado na língua de cada povo. A edição brasileira da Liturgia das Horas é tradução do texto latino, renovado. Foi um grande avanço. Mas o Concílio queria mais ao propor a adaptação da liturgia, também do Ofício Divino, às culturas das várias raças e povos (cf. SC 37-40).

Levando em conta esta abertura do Concílio, em 1988 foi elaborado o Ofício Divino das Comunidades[1], uma versão da Liturgia das Horas em linguagem brasileira, acessível às nossas comunidades eclesiais. Foi um trabalho sério, através do qual se pode verificar uma “mútua fecundação” entre a tradição das primeiras comunidades cristãs, a piedade popular e o jeito de ser da Igreja da América Latina vivenciado, sobretudo, nas Comunidades Eclesiais de Base.

O Ofício Divino das Comunidades representa um esforço de inculturação da Liturgia das Horas, com os mesmos elementos e estrutura, com a mesma teologia e espiritualidade, porém, mais simples e com uma linguagem orante, poética e musical, próxima da maioria do povo. Tem se tornado, cada vez mais, uma referência, e tem ajudado as comunidades a organizarem melhor a sua vida de oração, articulando o ano litúrgico em seu ritmo anual e semanal, com o ritmo diário regido pelas horas.

O compromisso comum – da hora marcada, das músicas, dos salmos -, ao qual cada pessoa se entrega voluntariamente, é algo salutar e contribui para ordenar a vida em uma lógica diferente, desenvolvendo uma nova maneira de se relacionar com o tempo. Ao interromper o ritmo da produção, toma-se consciência que o tempo não é apenas  kronos, isto é, o tempo medido pelo relógio e preenchido com o trabalho sob a pressão do mercado; ao contrário, o tempo pode ser vivido como kairós, a saber, o tempo em que Deus opera dentro de nós e no coração da história, a sua obra, independente do nosso esforço.

Neste ritmo diário somos lembrados(as) pelas horas, que o tempo não é o tirano, ao qual devemos servir como escravo; existe uma outra maneira de se relacionar com o tempo, a partir do movimento cósmico, com sua alternância de dia e de noite, de luz e de trevas, mais de acordo com as batidas do coração do que com o ritmo frenético das máquinas. As imagens de luz e trevas voltam nossa atenção ao  Mistério da hora, em relação às “Horas de Jesus”, e nos faz descobrir dentro das contradições do nosso próprio tempo a ação amorosa do Pai, que faz brilhar em nosso mundo a luz de Jesus Cristo, nos  Salvador.

Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

1. O que significa a expressão “ofício divino”?

2. De que forma a oração se torna “obra de Deus”?

3. Qual o simbolismo do “amanhecer” e do “entardecer” na oração cristã?

4. Há duas maneiras de viver o tempo. Quais são e o que significam?

5. Sugestão: reler e conversar sobre os números 83 a 100 da Sacrosanctum Concilium 


[1] O Ofício Divino das Comunidades, editado pela Paulus, está em sua 14ª edição.

Categorias:Espiritualidade
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