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Juventude e evangelização

                                                                                                                                                                                                                            Eurivaldo Silva Ferreira

Para mim, que sou da liturgia e da música, é um desafio e tanto falar sobre evangelização da juventude, mas me arrisco em dar uma pequena contribuição em que os jovens podem contribuir para a evangelização, sobretudo na América Latina.

É bom lembrar que entre os dias 5 e 11 de setembro de 2010 jovens de vários países da América do Sul se reuniram em Caracas, Venezuela, no 3º Congresso Latino Americano de Jovens, com o tema “Caminhemos com Jesus para dar vida a nossos povos”. O Congresso quis trazer à tona uma reflexão sobre a revitalização das pastorais juvenis da América Latina (saiba mais em www.pjlatino.redejuventude.org.br).

O conceito de juventude ultrapassa nossas compreensões, e devemos incorporá-lo no bojo de nossa atividade pastoral, sobretudo porque o limiar entre o ser jovem e viver o mundo da missão como discípulo-missionário ainda não é objeto de preocupação nas pastorais e nos movimentos juvenis de nossa Igreja.

Certas definições acerca do “ser jovem” vêm carregadas com valores que moldam essa fase da vida com certos compromissos e responsabilidades. Esses conceitos são benvindos no nível social, mas ficam no âmbito subjetivo, somente. Eu prefiro ficar com a conceituação antropológica que me permite dizer que juventude é o estado de nossas vidas compreendido entre a infância e a vida adulta. Nessas fases há também os revezes característicos do próprio estado de ser, assim como na maturidade ou na velhice. A juventude, então, não é o estado de nossas vidas em que ficamos mais irresponsáveis, como pensam alguns, mas é o estado em que temos permissão para viver com mais intensidade os questionamentos, discernimentos, entendimentos e os sonhos, todos eles oriundos da fase da infância e, tendo como perspectiva, a fase adulta.

Perguntar sobre juventude na América Latina é também perguntar pela Igreja latino-americana. Por isso tomo a liberdade de comparar uma com a outra. O conceito de Igreja que herdamos do Concílio Vaticano II é o que somos o povo de Deus. Neste povo se incluem os jovens, também. O Concílio Vaticano II (1963-1965) inaugurou um novo modelo de Igreja possível, em que saía de uma realidade e começava a viver outra fase de sua existência em que rito e magistério tomaram rostos novos. Esta Igreja estava decidida e fomentar no mundo uma nova mudança estrutural. Assim são os jovens. Eles também se libertam de certos conceitos, passando a assumir novas posturas, novas atitudes, novos rostos. A grande novidade eclesial desse concílio foi a de ampliar a representação da Igreja no mundo, fomentando também as Igrejas particulares presentes que sobrevivem em outros continentes, superando cinco séculos de conceituação jurídico-europeia. A intenção fundamental do Concílio Vaticano II foi de atualizar a ação salvífica da Igreja no mundo moderno. Ora, o termo ‘atualizar’ tem tudo a ver com o ser jovem, Ser atual é ser moderno, estar em sintonia com os outros e com o mundo. Reparem os jovens conectados, na internet, nas redes sociais, ‘antenados’, ‘ligados’, participando do mundo cibernético. É essa a imagem de uma Igreja ‘antenada’ que o Concílio quis trazer.

É em Aparecida que os bispos da América Latina declaram que “os jovens são chamados a ser ‘sentinelas do amanhã’, comprometendo-se na renovação do mundo à luz do Plano de Deus (…), compartilhando em comunidade a corrente de vida, construindo a Igreja e a sociedade” (Documento de Aparecida, nº 442). Portanto, vejo aqui um resumo do que realmente a juventude, com seus anseios e preocupações, pode realmente colaborar para a evangelização e vida de discípulos-missionários presentes na realidade da Igreja latino-americana. Articular realidade social e reino de Deus, eis o desafio para as pastorais e movimentos juvenis, penso.

Houve, de certa forma um rompimento, em que se passava de uma situação de conflito com o mundo para uma situação de diálogo com ele. O ato de romper-se induz a um ato de abrir-se a uma novidade, ao que é novo. Então, com o Concílio Vaticano II, a Igreja atingiu seu estado jovial de ser, uma inauguração de uma identidade, um jeito novo de ser, portanto um jeito jovem de assumir sua postura dentro do mundo, não se excluindo dele, mas dele fazendo parte e com ele dialogando.

Dois conceitos novos para a identidade da Igreja são assumidos: unidade de Deus na Trindade de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, portanto um Deus-comunidade, e Igreja como sacramento de salvação. Igreja e juventude. Que conclusões podemos tirar dessa junção?

Na América Latina, o conceito de sacramento de salvação se encontra com a realidade do povo. Essa Igreja nova toma rosto e características de seu povo, sobretudo dos mais pobres, que relutam no direito digno da vida plena para todos. Não que a Igreja salva, mas que nela contém a salvação oferecida por Jesus, e os que dela se achegam se tornam partícipes dessa salvação.

Salvação tem como fundamento e base o reino de Deus, reino esse pregado por Jesus com sua vida e culminando com sua páscoa (passagem). O viver o reino prescinde de cinco características básicas: verdade, justiça, fraternidade, paz e vida. A Igreja não é o reino, mas, vivendo no mundo, ela mesma anuncia o reino. Como se dá a questão do anúncio do reino que a Igreja reproduz no mundo? Ela deve ser, sobretudo, ecumênica e de comunhão, consigo mesma e com os outros, com a sociedade, diz o concílio. A esse paradigma, o critério da aplicação das propostas do reino de Deus nessa Igreja latino-americana, ganhou corpo, sobretudo com as conferências episcopais que se seguiram logo depois do concílio, culminando com a conferência de Aparecida (2007). Nas conferências episcopais, os bispos da América Latina procuram anunciar que a Igreja de rosto latino é uma Igreja de pobres, e voltada para os pobres, pois a eles Jesus se fez destinatário, curando e acolhendo, sobretudo salvando.

Contudo não se pode perder de vista a missão e o reino na articulação com redes de pessoas, com parcerias e serviços. É assim que agem os jovens, na internet, fazendo partes de redes sociais virtuais e reais, articulando já no decorrer da semana o encontro do final de semana, convidando amigos e amigas para a tal ‘balada’, o encontro dançante e o convívio festivo. É aí que estão a responsabilidade e o compromisso do ser jovem, que se traduz em ser de articulação e de comunicação com suas realidades. Ah, se aprendêssemos com a juventude a nos articular também, preparando durante toda a semana nossos encontros dominicais ao redor da mesa, nossa festa eucarística, nosso convívio festivo…

O encontro, e reunião, a curtição juntos, vejo que é a forma orante da juventude celebrar a vida, pois os jovens, que vivem menos a institucionalidade do ser Igreja, procuram no seu jeito próprio de rezar e louvar a força viva e eficaz para objetivar suas propostas, e cada qual vai tecendo sua história na grande rede do povo de Deus, que é a Igreja. De fato, o jeito próprio de se articularem faz com que eles vão tecendo a rede de comunidades sonhada pelas conferências episcopais e retomada pela Conferência de Aparecida, o que deve ser levado como paradigma para a compreensão da Igreja-comunidade conceituada pelo Concílio Vaticano II.

Os jovens acreditam nas forças frágeis (semente de mostarda, e ficam sempre atentos no joio), mas entendem que essas realidades já estão atingidas pela páscoa de Jesus Cristo. Penso que a evangelização da juventude acontece por aí.

Categorias:Juventude
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