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Vivendo a Quaresma como itinerário pascal

1. Introdução

Passadas as festas do carnaval, chega o tempo da Quaresma. No Brasil, este tempo se inicia com a celebração da Quarta-feira de Cinzas, em que se anuncia também o tema da Campanha da Fraternidade, cujo tema neste ano é “Fraternidade e a vida no planeta”, com o lema: “A criação geme em dores de parto” (Rm 8,22).

O documento conciliar Sacrosanctum Concilium (SC) nos ensina que uma das funções da Igreja é fazer com que seus fiéis se aproximem da graça salvadora de Cristo. Logo, quem participa das ações litúrgicas, entra em contato com a riqueza das virtudes e méritos de Jesus Cristo, por isso o mistério de Cristo anunciado e vivido possibilita a quem crê a plenitude da graça da salvação.

Toda semana, no domingo, justamente denominado dia do Senhor, a Igreja celebra a ressurreição de Cristo. Da mesma forma celebra uma vez por ano, o que chamamos de tríduo pascal. (SC,102). A este itinerário pedagógico que decorre num período de um ano, nós presenciamos toda ação de Cristo operando em prol de sua comunidade de fé, orante e reunida em assembleia. A Igreja denomina esse percurso como sendo o Ano Litúrgico, em que todos têm contato com aquilo que o próprio Cristo pregou, viveu e anunciou. É em torno desse mistério da nossa fé que também aguardamos sua feliz vinda, no reino futuro, mas que também já o fazemos aqui na terra, nas nossas ações do cotidiano.

Importante também sabermos que este mesmo documento solicita que a Igreja, celebrando os mistérios de Cristo, especialmente o mistério pascal, possa alimentar a piedade dos fiéis. Estes participam das ações litúrgicas não como estranhos ou simples espectadores, mas como participantes conscientes, piedosos e ativos. Por isso devem entender o que se celebra, instruir-se com a Palavra de Deus e alimentar-se da mesa do corpo do Senhor, dar graças a Deus, e oferecer-se juntos, elevando aos céus o mesmo sacrifício elevado por quem preside, pois o sacrifício de Cristo representa o cotidiano de si mesmos, até que um dia, por Cristo, com Cristo e em Cristo, Deus venha a ser tudo em todos. É esta a natureza frutificadora da ação litúrgica.

E o que a Quaresma tem a ver com isso? Pode perguntar o/a atento/a leitor/a. Podemos afirmar, baseados no mesmo documento conciliar que a celebração litúrgica tem a preocupação de colocar o ser humano em relação com o mistério pascal da morte e da ressurreição de Cristo, em quase todas as ocasiões da vida, pois do mistério pascal derivam a graça e a força pelas quais se santificam os fiéis bem dispostos. Por isso a finalidade da celebração litúrgica se resume em dois atos: santificação do povo e o louvor de Deus. Assim sendo, vejamos como o tempo da Quaresma pode possibilitar essa participação ativa, plena, frutuosa e consciente, e consequentemente a santificação de cada participante, de que fala a Sacrosanctum Concilium.

 2. Quaresma: dois aspectos num só tempo

O tempo quaresmal comporta dois aspectos: a memória ou preparação do batismo e a penitência. Trataremos desses dois aspectos a seguir:

2.1. Memória ou preparação do batismo

Quando se faz memória se quer recordar algo. Na celebração litúrgica nós fazemos memória de um fato, de um acontecimento. Celebrar é então tornar célebre aquele fato ou acontecimento. Todo domingo, na celebração eucarística, por força dos ritos e das preces, das orações e das louvações, nós tornamos célebres aqueles gestos de Jesus realizados na última ceia: sua entrega pascal, realizada de forma ritual na noite da quinta-feira santa e sua entrega sacrificial, seu corpo crucificado e morto na sexta-feira da paixão, além de contemplarmos o vazio no Sábado da sepultura e comemorarmos a ressurreição, no domingo de madrugada. Fazemos isso com ritos e com símbolos, pois repetindo os ritos, aprofundamos seu sentido, ou seja, aquilo que ele mesmo expressa, a nossa fé. Desta forma, a liturgia cristã, na qual fazemos memória pascal, passa por esse prisma, ela representa esses fatos, de uma forma ritual, mas que, revivendo-os, fazendo memória, nós o tornamos vivos, perpétuos.

Na Quaresma, então, fazendo memória do nosso batismo, nós recordamos aquela graça, pela qual fomos inseridos um dia, mergulhando na água do Espírito, renascendo para uma vida nova. Por isso, o tempo quaresmal, por sua força sacramental, nos coloca em prontidão para a escuta da Palavra e a oração, elementos essenciais que devem ser vividos também ao longo de todo ano litúrgico, mas que a Igreja chama para uma atenção particular e mais atenta neste tempo. Então, a ação memorial do batismo, nós a realizamos escutando a Palavra, orando em comunidade e celebrando na mesa comum a memória pascal do próprio Cristo.

Quanto à preparação do batismo, o tempo quaresmal se coloca como um período em que os catecúmenos, aqueles que eram iniciados na fé nas comunidades primitivas, podiam ser preparados para receber este sacramento, um dos que fazem parte dos chamados ‘sacramentos da iniciação à vida cristã’. No período quaresmal, os catecúmenos viviam o tempo chamado de ‘purificação’ e ‘iluminação’, o que os consagrava a preparar-se mais intensamente o espírito e o coração, examinando suas consciências e com atitudes penitenciais para a vivência sacramental.

Podemos dizer então que é no embalo deste percurso catecumenal que os fiéis já batizados, assim como os catecúmenos, se dispõem para a celebração do mistério pascal, celebrando a cada domingo, ao mesmo tempo, visualizando e tendo como meta a grande celebração do tríduo pascal.

No que se refere à adesão à fé, esta comporta um processo complexo, paulatino e que envolve um aprendizado de ensinamentos e posturas diante da Igreja. Tal aprendizado pode se dar no âmbito das celebrações ao longo do ano litúrgico, sobretudo quando essas celebrações são acompanhadas e expressadas pelo sentido próprio de cada celebração. Cada gesto, cada ação ritual, comporta um sentido teológico, no qual deve ser aprofundado com conhecimento de causa, mediante a qualidade com que se é realizado e celebrado, até provocar no celebrante (todos nós somos os agentes da celebração) uma atitude interior e espiritual, abrindo-se para o compromisso com a vida.

Como recurso pedagógico da Igreja, a exemplo disso se coloca o tempo quaresmal, que, com seu sentido próprio, vivido ao longo do ano litúrgico, pode ser contemplado com seu desejo de conversão e de mudança de vida, elementos principais contidos nas leituras bíblicas desse tempo.

2.2. Penitência

É o segundo aspecto desse tempo. Conservado pela Tradição da Igreja, aqueles que estivessem aptos para o batismo se comprometiam a refletir sobre a consciência do pecado, considerando-o como ofensa a Deus. Daí nascia o compromisso de não mais pecar, vivido por um estado de contínua conversão.

A Carta Preparatória para as Festas Pascais, de janeiro de 1988 explicita melhor o sentido da virtude e a prática da penitência, como “partes necessárias da preparação pascal: da conversão do coração deve brotar a prática externa da penitência, quer para os cristãos individualmente, quer para a comunidade inteira; prática penitencial que, embora adaptada às circunstâncias e condições próprias do nosso tempo, deve, porém, estar sempre impregnada do espírito evangélico de penitência e orientada para o bem dos irmãos e irmãs”.

Assim como os fiéis são convidados à prática da penitência, a Igreja, de tal modo se coloca nesta ação, rezando e intercedendo por aqueles que ainda não aderiram a este processo de conversão. Ela também convoca os fiéis para a prática da penitência e o retorno ao sacramento do perdão.

Segundo a Encíclica Dives in Misericórdia (Rico em Misericórdia), de João Paulo II, o papel da Igreja consiste em anunciar a misericórdia de Deus, que é todo misericordioso, aconselhando a consciência, baseando-se na Escritura, aponta sinais de melhorias, ou seja, o ser humano não é capaz de se salvar a si por sua própria capacidade, por isso ele precisa contar com Deus. A Igreja vê e dá testemunho da misericórdia de Deus, pelo Cristo anunciado no Evangelho, ela encoraja o ser humano e o introduz no seio da misericórdia de Deus, professando-a em toda a sua verdade, apoiada na Revelação. Deus penetra no íntimo do coração do homem e da mulher para transformá-lo/a, assim como fez com o filho pródigo.

O sinal externo do processo penitencial pode ser visualizado por diversas maneiras: o jejum e a caridade são os sinais mais recomendados pela Igreja, sobretudo se vividos por um período anterior de oração e por um período posterior de justiça (sentido de entrega a uma causa). Sobre isso, São Leão Magno, papa e doutor da Igreja, fala de um agente externo que quer nos impelir para pecar, fazendo-nos esquecer da fonte do perdão, o próprio mistério pascal, celebrado e vivido com mais intensidade por ocasião do tríduo pascal. Por isso também recomenda que ‘entremos na Quaresma com uma fidelidade maior ao serviço do Senhor’, nesse sentido, o jejum e a caridade são sinais externos para se vencer o mal, que cada vez mais quer se sobressair em nós.

No Brasil, a Campanha da Fraternidade, também vivido como um sinal externo de penitência, é um excelente auxilio para bem vivermos a Quaresma, diz a introdução do seu texto-base.

3. Os Domingos da Quaresma e seu sentido próprio

Já que a Quaresma nos convida a um ouvir mais atentamente a Palavra de Deus, é bom que entendamos o sentido de cada um dos 5 domingos que compõem o tempo quaresmal. Essas leituras, principalmente as do Ano A, estão intimamente ligadas com o batismo.

O 1º domingo da Quaresma assinala o início do sinal sacramental da nossa conversão: o abandono do ter, do prazer e do poder. O 2º Domingo é marcado pela compreensão do sofrimento e da glorificação; a Palavra e a Lei revelam um novo sentido para a fé daqueles/as que seguem o caminho do reino. No 3º Domingo, Jesus revela no diálogo com a Samaritana que ele mesmo é a fonte de água viva; no batismo, o sinal sacramental da água é significado desse ingresso numa vida nova, a vida em Cristo. No 4º Domingo o tema é o da iluminação, através da narração do Cego de Nascença; é o batismo aí compreendido como iluminação pelo dom da fé. Na Ressurreição de Lázaro, contemplada no 5º Domingo, temos uma antecipação da ressurreição para a vida na glória.

O caráter batismal dessas leituras, sobretudo se vivido junto aos catecúmenos, é que nos ajudará no processo da conversão a uma vida que seja realização do batismo, que será celebrado ou renovado por ocasião da páscoa.

4. Aspectos pessoais e comunitários para uma vivência quaresmal

Diz o Missal Romano que a Quaresma é um tempo de teste para nossa fidelidade na resposta ao plano de Deus. Pode acontecer que, depois de ter recebido o batismo, nós percamos essa confiança, por isso esse tempo é propício para renovar e reavivar em nossos corações as disposições com que, durante a Vigília Pascal, pronunciaremos de novo as promessas do nosso batismo.

Para viver bem a Quaresma no âmbito comunitário ou pessoal, enumero algumas sugestões, mas o/a leitor/a pode acrescentar outras, de acordo com sua possibilidade, abertura e condições:

  • Acolher nas liturgias, especialmente no tempo quaresmal e pascal, os que querem se aproximar do sacramento da Penitência, reconhecendo neles os verdadeiros necessitados de conversão, assim, os pressupostos teológicos da fé podem se unir à dinâmica do crescimento  da experiência cristã. Estes não podem estar separados daquele. O segundo não pode suplantar o primeiro. Trata-se de dois aspectos complementares da atividade santificadora da Igreja. Ao caminho e maturidade da fé, corresponde o caminho e maturidade do rito. A fé se exprime no rito e o rito reforça e fortifica a fé. A norma da oração é a norma da fé e vice-versa.
  • Usar atitudes inclusivas e não separatistas. Promover o dinamismo do ano litúrgico na vida da comunidade, permitindo que se viva cada tempo dentro de seu tempo específico, com suas propostas pedagógicas e seu itinerário adequado e místico.
  • Perceber nessas atitudes caminhos alternativos para o encaminhamento das lições tiradas da liturgia, dos textos bíblicos e eucológicos, dos ritos, a fim de que se possa levar para a vida da comunidade, sobretudo, no amparo àqueles que mais necessitam, seja dos sacramentos, da cura espiritual, seja das necessidades básicas para o desenvolvimento da vida (por exemplo, obras de caridade, distribuição de cestas básicas etc).
  • Neste sentido, entendemos que a liturgia celebrada pode dar luzes às questões temporais que homem e mulher podem enfrentar, sobretudo porque, o testemunho da Igreja em anunciar a misericórdia de Deus também pode ser vivenciado nas reuniões celebrativas, onde o povo tenha a livre iniciativa de poder expressar seus sentimentos, seus anseios e seus desejos, suas alegrias e suas tristezas, de tal modo que, possa a celebração litúrgica ser a porta para a entrada na vida comunitária.
  • Para se buscar e viver a misericórdia de Deus, seja no sentido pessoal, seja no sentido comunitário: depois do convite da Igreja ao sacramento do perdão (confissão), assumir as leituras bíblicas do dia, rezar um salmo, acender uma vela, colocar um ícone ou uma cruz, deixar um silêncio, fazer uma ação de graças: de manhã ou à noite, em casa, no quarto de um doente…
  • Respeitar a si mesmo/a, os próprios limites, reforçar o positivo das pessoas, optar por uma cultura de paz e preservação do meio ambiente, ser tolerante, participar das lutas pelas causas coletivas, de cunho ecológico, por exemplo… Na vida fraterna, dar sempre o primeiro passo em busca da unidade.
  • O perdão, como possibilidade de não aprisionar a si e aos outros nas consequências negativas dos seus atos, é condição para tornar a vida viável; pode ser visto como instrumento de cura interior, de abrir passagem para a dimensão divina de nós mesmos. Aquele que se conhece a si mesmo, com suas ambiguidades, pode compreender o outro em suas sombras. (cf. Jean Yves Lelup)

5. Conclusão

Enfim, viver a Quaresma é saborear o difícil itinerário da passagem da morte para a vida. Sabemos que passamos da morte à vida se amamos os irmãos, diz São João em sua primeira carta (1Jo 3,14). Sobretudo, devemos lembrar que somos discípulos/as de Jesus, que superou o fracasso humano da Cruz com um amor que vence a morte, e que o jejum e a caridade, traduzidos na solidariedade fraterna em favor do/a outro/a, do mundo, do planeta e do cosmos, nos colocam nesse mesmo patamar de Jesus, que, intensificando seu desejo de amar até o fim, passou pelo mal, vencendo-o.

Juntemos o nosso desejo ao de Jesus. Assim, como diz a regra de São Bento, com a alegria do Espírito Santo e cheios do desejo espiritual, esperemos a santa Páscoa.

Referência bibliográfica:

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Bergamini, Augusto. Cristo, Festa da Igreja: história, teologia, espiritualidade e pastoral do ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 2004.

Buyst, Ione e Silva, José Ariovaldo. O mistério celebrado: memória e compromisso I. Valencia: Siquem, 2002.

Carpanedo, Penha e Barros, M. Tempo para amar: mística para viver o ano litúrgico. São Paulo: Paulus, 1997.

Carpanedo, Penha. Quadros do ano litúrgico (Quaresma). Subsídios preparados para formação litúrgica.

Centro de Liturgia. Ano Litúrgico como realidade simbólico-sacramental. São Paulo: Paulus, 2002 (Coleção Cadernos de Liturgia nº 11).

Costa, Valeriano Santos. A Liturgia na Iniciação Cristã. São Paulo: LTR, 2008.

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Maldonado, Luiz. A ação litúrgica, sacramento e celebração. São Paulo: Paulus, 1998.

Rahner, Karl. El ano litúrgico, meditaciones breves. Barcelona: Herder, 2 edição, 1968.

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