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Tempo Pascal: busca do eterno vivido nas tramas do tempo terreno

Durante as celebrações do Tríduo Pascal pudemos evidenciar de forma ritual e sacramental os mistérios da vida de Jesus. Na Quinta-feira Jesus faz a ceia com seus discípulos e pré-anuncia numa forma ritual sua entrega na cruz; pede que nós guardemos essa memória através da ceia eucarística, a mesma ceia pascal judaica revestida de um novo caráter, a sua entrega. Na sexta-feira celebramos sua entrega corporal. A solene liturgia deste dia nos lembrou que a cruz está ligada ao sacrifício cruento de Jesus. Na cruz, a Igreja ergue o sinal da vitória, e nós igualmente a veneramos. No sábado, silenciamos durante o dia, pois a Igreja se depõe junto ao sepulcro do Senhor. Porém, nossa manifestação
piedosa não poderia ter ficado apenas no silêncio. Era preciso manifestar essa ação de Jesus que desce à mansão dos mortos, assim como professamos no Credo, a fim de que, através da oração entendêssemos o ato de solidariedade de Jesus com todos os homens e mulheres mortos pelo pecado, representados por Adão e Eva, ao resgatá-los para a vida. Na solidariedade última de Jesus ele não nos deixa entregues à morte e à sepultura (cf. Salmo 16(15)), mas nos ergue à sua altura, fazendo-nos participar de sua divindade, junto ao Pai. Já na Vigília Pascal, na noite do sábado, acendemos o fogo novo, e Jesus ressuscitado, simbolizado pelo grande Círio Pascal é solenizado, pois esta é a noite que a luz vence as trevas, por isso acendemos nossas velas no desejo de que Jesus Cristo, eterna páscoa, possa ser a representação máxima de nossas noites escuras, afinal, é com Jesus que passamos da morte para a vida. Por isso essa noite é marcada como sendo a mãe de todas as vigílias. É a partir dessa noite que continuamos a fazer a memória pascal de Cristo em nossas vidas, através da Eucaristia e dos demais sacramentos, além das outras ações litúrgicas da Igreja.

Podemos falar que nossa fé, seguindo este itinerário com Jesus, fica mais iluminada, porque nessas celebrações são trazidos à memória, passo a passo, os últimos acontecimentos da vida terrena de Jesus[1], que culmina com sua morte, mas que, o sentido desta Semana deve ter seu ápice na ressurreição, celebrada na madrugada de Sábado para Domingo. Então, em nossa páscoa semanal, que realizamos todo domingo, ao longo do ano litúrgico, num processo ritual e sacramental, nós fazemos memória da vida, paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus, e a isso nós chamamos de Mistério Pascal. É nele que nossa fé está centralizada.

Os evangelhos relatam que, depois da ressurreição, Jesus aparece a muitas pessoas, come com elas, dá seu Espírito, faz promessas e orienta os discípulos a permanecerem na fé que receberam, levando adiante aqueles ensinamentos adquiridos enquanto sua estada entre eles. Promete ainda um ‘outro defensor’, referindo-se ao Espírito Santo, que é doado no dia de Pentecostes. Para o evangelista João, o Espírito é doado
no próprio dia da sua entrega na cruz e também na tarde do dia da ressurreição.

De fato, o que celebramos no período que chamamos de Tempo Pascal por durante cinquenta dias é exatamente o alegre júbilo que estava contido naquela noite, como se fosse uma única festa, ou seja, um único domingo de Cristo ressuscitado. Esse tempo pascal termina com o Domingo de Pentecostes, ocasião em que nos é narrado nas liturgias a descida do Espírito Santo aos discípulos reunidos no Cenáculo,
assim como fora prometido por Jesus. Na história da Igreja esta celebração tem início no século VII.

O documento conciliar Sacrossanto Concílio, sobre a Liturgia, nos lembra que ‘a Igreja tem por função comemorar a obra salvadora de seu divino esposo, em determinados dias, no decurso de cada ano. Toda semana, no domingo, justamente denominado dia do Senhor, celebra a ressurreição, como o faz uma vez por ano, juntamente com a paixão, na grande solenidade pascal’[2].

Mas, o mistério de Cristo se desdobra por todo o ciclo anual, desde sua encarnação e nascimento (início do ano litúrgico com o Advento e ciclo do Natal) até a ascensão, pentecostes e a expectativa, cheia de esperança, da vida do Senhor[3] (fim do ano litúrgico). É nessas celebrações que fazemos memória da Aliança de Deus com seu povo, cujo fato marcante da auto-comunicação de Deus foi a Páscoa de seu Filho Jesus. Essa ação continua em nossas vidas de uma forma cíclica. Pela memória, nós, povo de Deus, seguimos a mesma tradição do povo da antiga Aliança, o povo de Israel, que, através da lei de Moisés, conheceu festas fixas a partir da páscoa, para comemorar as ações admiráveis do Deus salvador, dando-lhe graças através dessas festas; sua finalidade é a de perpetuar-lhes a lembrança e ensinar às novas gerações a conformar a sua conduta com elas.

É nesse contexto de celebração da Aliança que fazemos memória, como fato continuador do acordo feito entre Deus e seu povo, contado por inúmeras vezes na Sagrada Escritura. Só com essa memória é que conseguimos colocar em atitude de espera aquela alegria que para nos é aguardada na vinda do Reino.

No nosso tempo, que podemos chamar tempo da Igreja ou do Espírito, nós nos impregnamos dessa novidade memorial, presente nas nossas liturgias, que se encontra ressignificada no mistério de Cristo. O tempo da Igreja está compreendido entre a páscoa de Cristo, já realizada uma vez por todas, e a consumação dela no Reino de Deus. Logo, em toda liturgia há um caráter pascal[4].

Assim, quando respondemos a aclamação memorial “Eis o mistério da fé!”, que se encontra no centro da oração eucarística, ao proclamarmos este mistério da fé, estamos impulsionando nossos corpos na dimensão do futuro, do que há de vir, ao mesmo tempo em que fazemos memória daquilo que aconteceu no passado. Essa memória é feita no hoje de nossa existência, de nossas vidas, entremeadas de debilidades e angústias, de sonhos e esperanças, de alegrias e tristezas (cf. Constituição Conciliar Gaudium et Spes). Trata-se aqui de compreendermos que na nossa trama existencial Deus age, apesar da situação de fragilidade que nos encontramos. Todos esses sentimentos nós os carregamos em nossos corpos. Então, resta-nos fazermos dessa memória única e que perpassa nossos tempos até o fim dos tempos uma páscoa mística, assim como dizia Santo Hipólito, até que o Espírito Santo, aquele que é o protagonista da ressurreição de Jesus e da nossa, com suas primícias e seus dons, nos plenifique e nos conduza à nossa páscoa definitiva, ocasião em que conhecermos o dia sem ocaso.

Desta forma, partindo do Tríduo pascal como da sua fonte de luz, o tempo novo da Ressurreição enche todo o ano litúrgico com sua claridade. Aproximando-se progressivamente de ambas as vertentes desta fonte, o ano é transfigurado pela liturgia. É realmente “ano de graça do Senhor” (cf. Lc 4,19). A manifestação de Deus em favor de seu povo continua em ação na moldura do tempo, mas desde a sua
realização na Páscoa de Jesus e a efusão do Espírito Santo, o fim da história é antecipado, “em antegozo”, assim o Reino de Deus penetra nosso tempo[5].


[1] Bergamini, Augusto. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.

[2] Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, nº 102.

[3] Constituição Conciliar Sacroscantum Concilium, nº 103.

[4] Catecismo da Igreja Católica, nº 1164.

[5] Catecismo da Igreja Católica, nº 1168.

Categorias:Espiritualidade
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