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O tempo que toca o íntimo de nós

Eurivaldo Silva Ferreira

Introdução

Durante o Curso de Especialização em Liturgia, realizado pelo IFITEG e Rede Celebra de Animação Litúrgica, numa das orações da tarde, no momento da Recordação da Vida, alguém dizia que não tinha intimidade alguma com os feriados que acontecem durante o ano civil. Dia 21 de abril, por exemplo. Alguém é capaz de relacionar-se com este dia? Perguntavam. Dia 7 de setembro? Muda algo em minha existência por ocasião desse feriado? Dia 15 de novembro? O que acontece com a gente nesse dia? Essas afirmações interrogativas me causaram certa curiosidade, o que me levou a escrever esse artigo.

A relação desses feriados com algo que marca nossa existência tem a ver com o fato saudosista de nossa infância.  Lembro-me dessas ocasiões em que nossas professoras nos davam uma folha com um desenho, rodada ao mimeógrafo. Nossa tarefa era a de simplesmente pintar aquele desenho que representava o feriado comemorado naquela semana. Quem tem mais de 30 certamente já passou por essa experiência.

Naqueles dias de aulas com intensas reflexões, sempre permeadas pelas orações da manhã e da tarde, a impressão foi a de que aquilo que rezávamos era o eco daquilo que aprendíamos na sala de aula. Uma amiga de turma expressou-se dessa forma: “Descobri hoje que o tempo salva a gente!”. E ainda outra colega dizia: “Agora sim, eu vou começar a não ter mais pressa para fazer aquilo que tenho que fazer”.

 

Tempo de descarte

Nas expressões acima, sempre nos deparamos com afirmações-interrogações que percorrem nossa existência, nosso ser. Todas essas expressões foram reflexões apurada após um ciclo de dois dias de estudos sobre o Ano Litúrgico, com o prof. Laudimiro Borges, chamado carinhosamente por Mirim, presbítero de Belo Horizonte-MG.

Nessas expressões percebemos o quanto está controversa a mentalidade de que realmente o tempo que nos foi dado para viver, é marcado por algo fútil, algo que logo descartamos. É assim a mentalidade de hoje, vivemos do descarte, do adquirir facilmente produtos e abandonarmos outros. A tecnologia atual, em que muitos têm acesso, nos permite suprir ou substituir aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos que compramos há não muito tempo, simplesmente porque já surgiram outros que superaram aqueles que nós possuímos.

É assim que acontece com nossas liturgias. Sempre pensamos que existe por aí uma missa melhor do que aquela que geralmente participamos. Quem nunca ouviu a expressão: “Ah, a missa do padre ‘x’ é mais animada do que a missa do padre ‘y’”, ou: “Lá na missa do padre fulano eu me sinto melhor do que na missa do padre beltrano”. Já paramos para perguntar porquê pensamos assim? Porque fazemos comparações até na hora de alimentar nossa fé?

 

Tempo de ajuntamento

Num mundo marcado pela mentalidade do descarte, do fútil, a proposta pedagógica contida no estudo, na reflexão e nas celebrações do Ano Litúrgico, traz em si um sentido de “ajuntamento” daquilo que antes sempre fora considerado como que momentos estanques na vida das comunidades de fé. Encontramos nas páginas da Bíblia a expressão “resto de Israel”. Também a origem de Jesus foi colocada em questão quando perguntam: “Será se de Nazaré pode sair alguma coisa boa?”.

Lemos também no Salmo 80 que Deus cuidou com carinho de uma videira, arrancando ela de um lugar e plantando-a noutro, podando seus ramos, alargando suas raízes, e tomando cuidado para que o javali selvagem não a pisasse, cercando-a de carinhos. A literatura bíblica nos ajuda a entender de modo inverso a compreensão de hoje, pois Deus não descartou aquela videira, mas simplesmente a cuidou com carinho e ternura, a fim de que ela desse frutos, ou seja, Deus fez um ajuntamento de povos fragmentados, a fim de constituir um só povo. A novidade que está aí é a de que Deus deu um tempo, cercado de amorosidade, ternura, compaixão, até que a videira atingisse sua fase de maturação, pronta para acolher sua Palavra e viver sua vontade. Será se o tempo de Deus é igual ao nosso tempo? Também está na Bíblia que “mil anos para Deus são como um dia”…

 

Ano Litúrgico, tempo de reunir fragmentos

Mas, com o Ano Litúrgico, com seus tempos e festas, com seus sinais e mistérios, acontecidos durante o ciclo de um ano, a Igreja nos apresenta uma forma de viver o “ajuntamento” de fragmentos, em busca de uma unidade. A essa unidade nós podemos chamar de Mistério Pascal de Cristo. Este acontece de ano em ano, por ocasião da páscoa da ressurreição, naquela grande noite da Vigília Pascal. Mas que percorre também todo domingo, como sendo uma repetição daquele dia pascal por excelência, em que a comunidade fez a experiência do Cristo ressuscitado no meio dela.

O que antes era considerado “engavetado”, numa espécie de “fragmentos”, agora, com a reforma do calendário litúrgico, em 1969, a Igreja passou a chamar de diferentes faces do mesmo mistério pascal de Cristo, ocorrendo em diversas datas e ocasiões do Ano Litúrgico, principalmente a cada domingo, ocasião em que a Igreja recorda a paixão, morte e ressurreição de Jesus, conforme diz a Sacrosanctum Concilium.

 

Redescobrir nos fragmentos a centralidade do mistério pascal

Assim, viver o Ano Litúrgico, na unidade e na centralidade do mistério pascal de Cristo, é redescobrir, celebrando, vivendo e contemplando a riqueza espiritual que cada tempo litúrgico contém e carrega em seu bojo, sempre na possibilidade de oferecer a quem celebra e participa ativa, frutuosa e conscientemente, a unidade completa do mistério pascal, por inteiro, por completo, fazendo-nos também seres inteiros, seres completos.

Desta forma, explorar o calendário litúrgico que está presente no Ano Litúrgico da Igreja, é não importar a fragmentação do modelo do descarte e do fútil que encontramos em nossas realidades sociais.

Perceber o Cristo como centro do Ano Litúrgico é nos percebemos a nós mesmos. Só assim o Ano Litúrgico é então sinal sacramental de nossas vidas, porque encontramos nele a medida com a qual o Cristo quer agir em nós, na nossa personalidade e na nossa pessoalidade, no decurso de um ano, vivendo nosso tempo no tempo do próprio Cristo.

Portanto, tendo o tempo como sinal sacramental do Ano Litúrgico, a quem chamamos de sinal sensível,  mergulhamos na realidade do mistério pascal de Cristo, que nos atinge por inteiro, da mesma forma que esse mesmo mistério se realiza em nós, fazendo-nos seres pascais.

 

Concluindo

Muitos desafios são nos colocados a partir da reflexão desse tema tão caro à vida da Igreja. Para nós, estudantes e pesquisadores da liturgia, resta-nos mergulhar nesse caminho pedagógico-espiritual, a fim de que nos deixemos alimentar e crescer com essa espiritualidade.

Aproveitando de todos os sinais presentes no Ano Litúrgico, possibilitamos que ele mesmo nos modele, direcionando nossas vidas ao forte apelo de Cristo que diz no Pai Nosso: “Que o Reino do Pai aconteça entre nós”, só assim fazemos já aqui na terra o exercício daquele Reino futuro, pelo qual almejamos. Só o Ano Litúrgico, com suas celebrações e festas, pode nos permitir isso.

Categorias:Espiritualidade
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