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A arte de cantar os Salmos na Liturgia

Situando o Salmo responsorial

O Salmo responsorial é parte integrante da Liturgia da Palavra, na celebração da Eucaristia. É também o elemento principal da Liturgia das Horas (Ofício Divino), juntamente com os cantos bíblicos do Primeiro e do Novo Testamento. A Liturgia da Palavra é constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem entre elas (Salmo e Aclamação ao Evangelho), sendo desenvolvida pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. A IGMR diz que o Salmo oferece uma grande importância litúrgica e pastoral, por favorecer a meditação da palavra de Deus.

Os primeiros cristãos viam nos salmos a própria profecia de Jesus, o Cristo, por isso, o costume de cantar os salmos remonta dos primeiros séculos da história do cristianismo. Herdada do culto da sinagoga judaica, foram incorporados à liturgia cristã muito cedo. S. Agostinho (século V) fala com certa eloquência em suas homilias do valor cantado dos salmos durante a liturgia da palavra. Aliás, os santos Padres sempre consideraram o salmo responsorial como uma “leitura cantada”.

O Salmo responsorial constitui um comentário lírico-poético da primeira leitura, a esta respondendo. Ocupa um espaço significativo como resposta por dois motivos: 1) porque é escolhido para responder à palavra de Deus proclamada, sendo a própria palavra, e 2) prolongando, assim, seu sentido teológico-litúrgico e espiritual, estreitando os laços de amor e fidelidade no diálogo da Aliança entre Deus e seu povo. Este prolongamento vai-se dando enquanto o(a) salmista entoa as estrofes e a assembleia repete o mesmo refrão.

O salmo é constituído de um refrão, que nem sempre faz parte do próprio texto oficial, algumas vezes é extraído de outros livros da Bíblia. Há também salmos que são extraídos de outros livros, como o Magnificat, no tempo do Advento (Ano A) e Isaías 12 (Ano B). As estrofes são construídas em forma de poesia, embora muitas vezes não se percebem ou não aparecem os elementos característicos da poesia. Esta forma facilita a memorização tanto para quem canta, quanto para quem ouve. É por isso que é chamado de responsorial, que é em forma de responso, que corresponde à participação da assembleia que responde com um refrão, sempre depois de cada grupo de versos, por isso o valor de resposta não está afixado à primeira leitura e sim à própria execução do salmista, assim somente o texto é que está ligado à primeira leitura e não a forma musical de interpretação. Esta forma pode ser também caracterizada pela interpretação de dois coros ou grupos, ou pelo coro e por um solista. Há também a forma direta, isto é, sem refrão, esta forma é mais apropriada para os cantos de abertura, oferendas, comunhão, e nas celebrações de outros sacramentos e sacramentais, como por exemplo o Salmo 118, que era cantado pelas comunidades primitivas nos rituais de exéquias.

Poderíamos dizer que o salmo responsorial ressoa nos ouvidos e no coração da assembleia como um suave eco daquela leitura, por isso tem uma função emotiva, pois sua interpretação com suavidade e doçura, fixa a mensagem da leitura anteriormente ouvida.

Sob o ponto de vista do caráter da interpretação, este deve ser salmodiado, isto é, “cantilado” com atitude de proclamação, por fazer parte da Liturgia da Palavra e constituir-se Palavra de Deus cantada. Se não for cantado, que seja pelo menos declamado (contudo sem exageros teatrais), convém ser cantado pelo menos o refrão com a participação do povo. Não pode ser omitido, haja sempre uma ou outra forma, se omitido, a Liturgia da Palavra fica incompleta.

O salmista ou cantor do salmo, no ambão ou outro lugar adequado, profere a melodia dos versos do salmo perante toda a assembleia que o escuta sentada, participando costumeiramente pelo refrão. A forma de execução dos versos pelo salmista é a salmodia, enquanto que a da assembleia é a forma coral, de modo uníssono.

Os instrumentos escolhidos para acompanhar os salmos devem ter registros suaves e delicados. Tocar forte neste canto seria exceção. Os instrumentos de cordas podem apoiar-se nos acordes e dedilhados, ajudando o salmista a fixar a tonalidade e a forma musical, ou entremeando breves interlúdios entre os versos, como que realizando uma espécie de canto-sem-palavras, comentando musicalmente o texto ouvido e cantado. Porém, é mais adequado que apenas um instrumento harmônico acompanhe o canto do salmista, uma vez que, se trata de um canto de livre interpretação, o que dificultaria o acompanhamento de vários instrumentos de uma só vez. Nunca o instrumento deve “dobrar” a melodia que se está cantando, portanto, quem tem o destaque nesta hora é a palavra proclamada cantada e não o instrumento. A percussão deve ser usada com bom sendo e coerência. O bom percussionista deve descobrir entre seus instrumentos o melhor meio e modo para dar ênfase aquela melodia. Uma boa referência para essa reflexão é a própria Bíblia que cita logo no começo de alguns salmos: “Do mestre de canto. Dos filhos de Core. Com oboé. Cântico” (Sl 46), significando que este salmo, na ocasião de sua execução, por Davi, fosse acompanhado por um oboé. Encontramos também outras expressões indicando a forma de interpretação do respectivo salmo, como: “para flautas” (Sl 5), “à meia-voz” (Sl 56), “com instrumentos de corda” (Sl 61), “prece” (Sl 142), etc. Certamente, como a maioria dos salmos foi atribuída a Davi e, sendo ele um músico, este tenha se inspirado em poemas e canções já existentes em sua época, é o caso de algumas citações, como “Sobre a ‘A corça da manhã’” (Sl 22), que quer dizer que esta melodia foi inspirada na canção ‘A corça da manhã’, assim como o Salmo 80 e outros com melodias inspiradas na ária ‘Os lírios são os preceitos’.

Os Salmos na liturgia participam da função memorial de toda a liturgia. Por meio deles, a ação ritual expressa e faz acontecer a salvação, e a Igreja se apropria do mistério, introduzindo nele sua esperança no Cristo, o atributo do próprio salmo. Pedagogicamente, o Espírito Santo opera na Igreja a oração em comum, cuja abertura se dá na chave da transformação pascal da comunidade.
Ao longo do ano litúrgico, os salmos, além de se referir a Jesus Cristo, são escolhidos e interpretados de acordo com cada tempo ou momento litúrgico. É bom então que se variem as melodias, observando os tempos litúrgicos e as festas. Torna-se monótono quando uma só melodia permeia os textos durante todo o ano litúrgico Assim há salmos próprios para os ofícios da manhã (p. ex. o Salmo 63), para os ofícios da tarde (Sl 141), para a Eucaristia (Sl 34), para os sacramentos da iniciação cristã (Sl 23), para o Natal (Sl 2 e 110), para a Páscoa (Sl 118), etc. E, é claro, não podemos deixar de relacioná-los ainda com nossa realidade atual. Assim, ao cantar os salmos, estamos prestando atenção ao sentido literal, cristológico e espiritual de cada um.

Nas leituras, explanadas pela homilia, Deus fala ao seu povo, revela o mistério da redenção e da Palavra, se acha presente no meio dos fiéis. O canto favorece a compreensão do sentido espiritual do salmo e contribui para sua interiorização. Pelos cantos e pelo silêncio, o povo se apropria dessa palavra de Deus e alimentados por ela, adere à fé, na oração do símbolo (profissão de fé). Também, com base na Palavra escutada, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo inteiro, em seguida, agradece ao Pai pelo Filho, no Espírito (Oração Eucarística), e partilha o pão da comunidade na mesa eucarística (comunhão).

O canto dos salmos na assembleia reunida transcende a vivência fora dela, ao mesmo tempo em que os salmos apontam para um compromisso assumido nesta mesma assembleia. Isso realmente só vai se dar quando ouvirmos e cantarmos os salmos prestando atenção na letra e na música, relacionando-os com as leituras ouvidas e com nossa vida pessoal e social. Eles devem interpelar nossa realidade. Quando canto os salmos, sou eu que clamo ao Senhor, ao mesmo tempo em que esse “eu” representa um grito de súplica, de louvor ou de agradecimento ao “eu” de Jesus Cristo, ligando-o à humanidade inteira. Santo Agostinho afirmava que Cristo é o cantor dos salmos que nos convida a deixar o mesmo Cristo (com seu Espírito) cantar em nós.

O que se espera do salmista:
Que tenha o mínimo de formação bíblico-litúrgica e espiritual: aprofundar o sentido do texto dos salmos, levando em conta os 4 passos da leitura orante (o que o texto diz, o que o texto me diz, o que o texto me faz dizer a Deus, o que o texto me faz dizer ao mundo). É necessário aprender a orar com o salmo, antes de ele ser executado na liturgia, rezando em casa e prolongando e aplicando seu sentido à vida a fim de que as cante na liturgia de forma orante, isto é, antes de ser cantado ele deve ser vivido;

Que tenha consciência de sua ação gestual em coerência com o ministério litúrgico; que tenha o mínimo de formação musical: saber ler uma partitura simples, usar corretamente o microfone, atitude ao subir e se portar diante do ambão da Palavra, manusear o Lecionário, ter entrosamento com os instrumentos musicais, saber se comunicar com a assembleia, conhecer as várias formas de se cantar, ter bom ouvido musical.

Que transmita com a voz e com a melodia o sentido teológico-litúrgico do salmo, que o gesto externo ligado à voz e à execução musical não transpareçam uma apresentação ou performance musical, mas uma leitura cantada da própria Palavra de Deus. O corpo fala daquilo que o coração está cheio, por isso, dirigir-se à mesa da Palavra com tranquilidade e leveza, inclinar-se, demonstrando respeito e reverência, dirigir um rápido olhar para a assembleia, envolvendo-a, concentrar-se, afinação, boa dicção. Não adianta ser um bom profissional da voz se não houver espiritualidade naquilo que vai se fazer. Está na regra de São Bento a seguinte recomendação que ele mesmo dava a seus monges: ‘acendam o fogão do mosteiro da mesma forma que vocês acendem as velas do altar’.

Que se aproprie de uma atitude espiritual. O salmo deve ser estudado antes, o salmista deve antes de cantar, ter entendido sua estrutura, o contexto da criação, a quem ele é endereçado e o porquê de ter entrado naquela liturgia. Ele deve saber o sentido do salmo no contexto da celebração do dia, do tempo litúrgico. A pergunta é: que sentido tem esse salmo quando a ele são acrescidos melodia, harmonia, ritmo, entonação, voz afinada e ação gestual?

Que seja alguém que frequente a Palavra, pois “todo o discípulo do Reino é como um pai de família que tira do seu baú coisas novas e velhas” (Mt 13, 52). O bom cantor deve agir como um discípulo do Reino.

As portas de entrada para o Salmo responsorial:

Há três portas para entrar na compreensão do salmo e fazer dele a nossa oração.

A primeira é o sentido do salmo em sua época: o que levou o salmista a compor o salmo? Por que a comunidade compôs? Quais são os sentimentos presentes no salmo? Quais são as imagens e paisagens contidas no texto?

A segunda a porta que se abre para perceber no salmo é a oração do Cristo. Os refrãos dos próprios salmos que entraram para a liturgia ajudam a perceber como o salmo tem a ver com o mistério pascal de Jesus celebrado naquela liturgia. Por que este salmo foi colocado na boca de Jesus? Qual a ligação que posso fazer do salmo com as passagens do Evangelho? Em que momentos circunstanciais da vida de Jesus ele rezou ou cantou este salmo?

A terceira porta é o sentido do salmo para a Igreja hoje: quando rezamos os salmos sentimos que eles falam da nossa própria experiência vivida no dia a dia. Eu me encontro neste salmo? O que ele diz sobre mim? Há experiências no salmo que são ou podem ser vividas por mim?

Conclusão:

É necessário se resgatar o significado sacramental das liturgias da Semana Santa como um todo, a fim de que possamos entender com maior clareza os mistérios de nossa fé que se estendem por todas as celebrações. Trata-se de participar dessas celebrações com conhecimento de causa, sabendo o que se faz. Seguramente entenderemos o próprio Mistério Pascal, fonte e origem de nossa fé.

Outras obras consultadas:
Introduções Gerais dos Livros Litúrgicos. 3ª edição. São Paulo: Paulus, 2004, p.121.
Bíblia de Jerusalém.
Estudos da CNBB nº 12. Estudo sobre os cantos da missa. São Paulo: Paulinas, 1976.
BORTOLINI, José. Conhecer e rezar os salmos. Comentário popular para nossos dias. São Paulo: Paulus, 2000.
BUYST, Ione. O ministério de leitores e salmistas. São Paulo: Paulinas, 2001. (Coleção Rede Celebra nº 2), p. 44.
BUYST, Ione; SILVA, José Ariovaldo da. O Mistério Celebrado: Memória e Compromisso I. Espanha: Ed. Siquem /Paulinas, 2002. p 148. Coleção Teologia Litúrgica.Vol 9.
Revista de Liturgia, publicação da Congregação das Discípulas do Divino Mestre.
Penha Carpanedo, e seus inúmeros artigos publicados na Revista de Liturgia e textos orientadores para formações litúrgicas.

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