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Iniciação cristã: processo de inspiração catecumenal

Eurivaldo Silva Ferreira[1]

                      iniciacaoApós a ressurreição de Jesus, era necessário continuar sua proposta de anúncio do Reino. O evento de Pentecostes inicia o processo de evangelização e as primeiras comunidades tomam forma, sustentadas pelos apóstolos. Nas celebrações das casas se ouvia a Palavra e se repartia o pão eucarístico. Os que acolhiam a fé se conscientizavam da necessidade da ajuda mútua, que se estendia àqueles mais necessitados. No relato dos Atos dos Apóstolos afirma-se o acréscimo de mais pessoas que iam se ajuntando à comunidade e aceitando a salvação (At 2,47).

                Este cenário confirma que a vida de fé era permeada pela liturgia e pela escuta da Palavra de Deus. Este processo, chamado de catecumenato, era uma “porta” por onde os cristãos iniciantes acompanhavam as várias etapas de conversão de outros cristãos. Uma vida cristã implicava também no acolhimento do Evangelho, acarretando uma conversão, na profissão de fé, no Batismo, na efusão do Espírito Santo e no acesso à Comunhão Eucarística. A iniciação no mergulho dos mistérios era feita de forma gradual, assim os iniciados se propunham a fazer esse itinerário. Ao fim do processo, celebrava-se o coroamento dessa iniciação com a recepção dos respectivos sacramentos.

               Iniciar significa “colocar a pessoa para dentro do grupo ou da comunidade”, e tem semelhança com o verbo mergulhar, sinal externo do sacramento do Batismo, que significa a manifestação pelo mergulho de que a pessoa foi introduzida no mistério.

              Mas esse modelo de iniciação à vida cristã ao estilo catecumenal, tal e qual faziam as primeiras comunidades, foi se perdendo com o passar do tempo. O contexto social e a modernidade levaram as pessoas a não mais precisarem dele.

                Agora há uma necessidade de se retomar a essa prática. A proposta ritual dos sacramentos de iniciação deve ser aplicada na vida de batizados e batizadas. Passa por aí uma vida de fé autêntica, madura e oriunda no Evangelho de Jesus Cristo.

                Ocorre que o modelo de catequese atual, focado apenas na doutrina e nos sacramentos, tornou-se ineficaz para isso. A perda dos valores religiosos e éticos atinge a sociedade como um todo, manchando suas raízes, gerando escândalos, corrupções, incertezas e outras mazelas. Então só podemos concluir que há algo de errado nesse processo. “Ninguém nasce cristão, nós nos tornamos cristãos”, dizia Tertuliano, Pai da Igreja Antiga. Ora, a sociedade atual não tem mais nada de cristão, o Evangelho ainda não foi totalmente absorvido pela sociedade. É necessário então pensarmos o que significa ser cristãos hoje.

                O fato é que agora, quando se fala de iniciar cristãos na fé da Igreja, fala-se de uma prioridade, e é para isso que apontam as reflexões atuais. O RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), publicado em 1973, propõe uma pedagogia própria e específica, cujo relevo é oferecer a uma pessoa ou candidato um itinerário, um caminho, para ele vir a se tornar um discípulo, ou seja, um processo de iniciação à vida cristã marcado por celebrações e ritos, e que culmina com o recebimento de um sinal sacramental. Por isso, em vez de curso, pensa num percurso de vida cristã. Essa é a chave.

               As comunidades cristãs encontrarão o jeito certo de adaptar as suas catequeses a esse novo método, também buscando qualificação. O RICA repropõe essa dimensão da catequese litúrgica, culminando com uma nova identidade cristã. Ele mantém aquele primeiro contato com que se preocupavam as primeiras comunidades cristãs, e quer resgatar isso. Trata-se de falar de uma re-apropriação do processo iniciático para os catequistas que lidam com crianças, jovens e adultos.

                A catequese de iniciação batismal é ao mesmo tempo uma catequese de inspiração catecumenal, isto é, os iniciados percorrem o caminho pascal, dado o itinerário proposto pelo RICA, com seus tempos, etapas e celebrações. Esse é o fio condutor e o esqueleto de toda catequese. Contudo, a iniciação não termina nos sacramentos. Para o RICA, a iniciação continua até o tempo da mistagogia.

[1] Mestre em Teologia, com concentração em Liturgia, pela PUC/SP. Pós-graduado em Liturgia pelo IFITEG-GO. Graduado em Teologia pela PUC/SP. É membro da Rede Celebra de Animação Litúrgica e do Corpo Eclesial de Compositores Litúrgicos do Setor de Música Litúrgica da CNBB. Assessora encontros de formação litúrgico-musical em diversas dioceses e comunidades no Brasil. É membro do Universa Laus desde 2016. Atua na animação litúrgico-musical na paróquia Santo Antônio do Bairro do Limão da Arquidiocese de São Paulo.

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