Viver a vida em comunidade a partir dos mistérios celebrados

5 de Novembro de 2016 Deixe um comentário

O método sugerido pelo RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos) prevê que sejam necessários quatro meios para se realizar o que chama de catecumenato: a catequese, uma prática da vida cristã, a liturgia e o testemunho da vida aliado à profissão de fé. Esse processo encontra sua culminância numa vida de fé adulta que dura a vida toda. Catecumenato é, então, a denominação desse processo privilegiado pela Igreja.

Crédito: HY QI Galery

Crédito: HY QI Galery

A finalidade da catequese é levar os catecúmenos não só ao conhecimento de dogmas e preceitos, mas terem a íntima percepção do mistério da salvação que desejam participar. Cumpre também o papel de esclarecer a fé, dirigir o coração para Deus, incentivar a participação nos mistérios litúrgicos, animar o apostolado e orientar toda a vida segundo o espírito de Cristo. A organização da catequese é distribuída por fases, relacionada com o Ano Litúrgico, marcada por ritos de transição.

Com o Ano Litúrgico, a catequese se encontra com seu conteúdo (liturgias celebradas nos diversos tempos), além de apurar o sentido espiritual dos gestos, das ações simbólicas, permitindo ao catecúmeno descobrir a atitude interior (espiritual) que se esconde por detrás dos ritos. Essa prática incentiva a descoberta da santificação do Domingo (Dia do Senhor) e a espiritualidade dos sacramentos e sacramentais.

A liturgia supõe de fato, uma comunidade. Sem exigência comunitária não é possível sustentar uma boa liturgia a longo prazo, nem sequer uma boa assembleia que celebra comunitariamente a fé. Ou se forma uma comunidade, ou então a liturgia não passa de uma mera rotina de desobriga (ritualismo, em vez de ritualidade).

Como já dissemos antes, a liturgia tem o duplo efeito mistagógico e pedagógico. Mistagógico porque pela força dos ritos, o catecúmeno e a assembleia celebrante são conduzidos ao mistério. Pedagógico porque, os ritos aplicados na vida, servem como estímulo para uma prática cristã coadunada com o Evangelho de Jesus.

A liturgia catecumenal tem como finalidade afirmar a fé dos catecúmenos, introduzi-los na oração cristã, iniciá-los nos sinais e prepará-los para a liturgia sacramental. Essas celebrações possuem caráter de acolhimento, de esperança, e são predispostas com sinais e fins específicos [signação, banho, unção, imposição das mãos, beijo e abraço, reconciliação, comida e bebida, banquete etc].

Podemos falar de três tipos de graduação de liturgias durante o período do catecumenato: 1) celebrações humanas da vida de fé, sem serem necessariamente litúrgicas, próprias do catecumenato; 2) celebrações litúrgicas  com um certo ritual, nas quais intervêm a palavra de Deus e a adesão à mesma pela confissão da fé, pela súplica ou pelo gesto de entrada numa comunhão; 3) celebrações sacramentais, próprias da Vigília Pascal. Esse tipo de graduação contribui para o processo progressivo da vida de fé dos catecúmenos.

Pela prática da vida cristã o catecúmeno acostuma-se a orar mais facilmente, dá testemunho de sua fé, guarda em tudo a esperança de Cristo, segue na vida as inspirações de Deus, e pratica a caridade para com o próximo, até a renúncia de si mesmo. Para isso, ele conta com o ministério dos introdutores.

Pelo testemunho da vida e profissão de fé, os catcúmenos e os neófitos aprendem a cooperar na evangelização e edificação da Igreja, isto é, já participam da vida da Igreja e de seus anseios e sua materialidade no mundo, preparando-se e entendendo o chamamento da Igreja que quer atuar nas realidades do mundo. Assim o seu batismo torna-se fecundo quando estes o associam à necessidade daquilo que está ao seu redor, fazendo com que essas realidades possam ser iluminadas pela Páscoa de Jesus, tal e qual aconteceu com eles nos ritos do batismo.

Os que são chamados a passar pelas fontes batismais devem qualificar sua participação no mistério de Cristo por meio de ritos, preces, gestos e ações simbólicas. Essa participação é confirmada de diversas formas: ativa, plena, frutuosa, interior e exterior. Para que esta manifestação seja translúcida a nossos olhos, a liturgia se apropria sinais sensíveis (água, livro, altar, fumaça, velas, cores, calendário, canto e música, espaço litúrgico, pão e vinho etc). Por meio desses sinais manifesta-se a presença de Cristo. Estes alimentam, fortalecem e exprimem a fé, promovendo mais intensamente a participação ativa de toda a comunidade cristã.

Nossa participação exige que estejamos ‘inteiros’ na celebração, e nosso corpo, templo do Espírito Santo, deve ser sinal de unidade (portanto, sacramento) que estimula os pensamentos e os sentimentos dos participantes. Toda a comunidade se sente então convocada a caprichar nas celebrações para que elas sejam também e, principalmente, a porta da fé.

Iniciação cristã: processo de inspiração catecumenal

5 de Novembro de 2016 Deixe um comentário

Eurivaldo Silva Ferreira[1]

                      iniciacaoApós a ressurreição de Jesus, era necessário continuar sua proposta de anúncio do Reino. O evento de Pentecostes inicia o processo de evangelização e as primeiras comunidades tomam forma, sustentadas pelos apóstolos. Nas celebrações das casas se ouvia a Palavra e se repartia o pão eucarístico. Os que acolhiam a fé se conscientizavam da necessidade da ajuda mútua, que se estendia àqueles mais necessitados. No relato dos Atos dos Apóstolos afirma-se o acréscimo de mais pessoas que iam se ajuntando à comunidade e aceitando a salvação (At 2,47).

                Este cenário confirma que a vida de fé era permeada pela liturgia e pela escuta da Palavra de Deus. Este processo, chamado de catecumenato, era uma “porta” por onde os cristãos iniciantes acompanhavam as várias etapas de conversão de outros cristãos. Uma vida cristã implicava também no acolhimento do Evangelho, acarretando uma conversão, na profissão de fé, no Batismo, na efusão do Espírito Santo e no acesso à Comunhão Eucarística. A iniciação no mergulho dos mistérios era feita de forma gradual, assim os iniciados se propunham a fazer esse itinerário. Ao fim do processo, celebrava-se o coroamento dessa iniciação com a recepção dos respectivos sacramentos.

               Iniciar significa “colocar a pessoa para dentro do grupo ou da comunidade”, e tem semelhança com o verbo mergulhar, sinal externo do sacramento do Batismo, que significa a manifestação pelo mergulho de que a pessoa foi introduzida no mistério.

              Mas esse modelo de iniciação à vida cristã ao estilo catecumenal, tal e qual faziam as primeiras comunidades, foi se perdendo com o passar do tempo. O contexto social e a modernidade levaram as pessoas a não mais precisarem dele.

                Agora há uma necessidade de se retomar a essa prática. A proposta ritual dos sacramentos de iniciação deve ser aplicada na vida de batizados e batizadas. Passa por aí uma vida de fé autêntica, madura e oriunda no Evangelho de Jesus Cristo.

                Ocorre que o modelo de catequese atual, focado apenas na doutrina e nos sacramentos, tornou-se ineficaz para isso. A perda dos valores religiosos e éticos atinge a sociedade como um todo, manchando suas raízes, gerando escândalos, corrupções, incertezas e outras mazelas. Então só podemos concluir que há algo de errado nesse processo. “Ninguém nasce cristão, nós nos tornamos cristãos”, dizia Tertuliano, Pai da Igreja Antiga. Ora, a sociedade atual não tem mais nada de cristão, o Evangelho ainda não foi totalmente absorvido pela sociedade. É necessário então pensarmos o que significa ser cristãos hoje.

                O fato é que agora, quando se fala de iniciar cristãos na fé da Igreja, fala-se de uma prioridade, e é para isso que apontam as reflexões atuais. O RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), publicado em 1973, propõe uma pedagogia própria e específica, cujo relevo é oferecer a uma pessoa ou candidato um itinerário, um caminho, para ele vir a se tornar um discípulo, ou seja, um processo de iniciação à vida cristã marcado por celebrações e ritos, e que culmina com o recebimento de um sinal sacramental. Por isso, em vez de curso, pensa num percurso de vida cristã. Essa é a chave.

               As comunidades cristãs encontrarão o jeito certo de adaptar as suas catequeses a esse novo método, também buscando qualificação. O RICA repropõe essa dimensão da catequese litúrgica, culminando com uma nova identidade cristã. Ele mantém aquele primeiro contato com que se preocupavam as primeiras comunidades cristãs, e quer resgatar isso. Trata-se de falar de uma re-apropriação do processo iniciático para os catequistas que lidam com crianças, jovens e adultos.

                A catequese de iniciação batismal é ao mesmo tempo uma catequese de inspiração catecumenal, isto é, os iniciados percorrem o caminho pascal, dado o itinerário proposto pelo RICA, com seus tempos, etapas e celebrações. Esse é o fio condutor e o esqueleto de toda catequese. Contudo, a iniciação não termina nos sacramentos. Para o RICA, a iniciação continua até o tempo da mistagogia.

[1] Mestre em Teologia, com concentração em Liturgia, pela PUC/SP. Pós-graduado em Liturgia pelo IFITEG-GO. Graduado em Teologia pela PUC/SP. É membro da Rede Celebra de Animação Litúrgica e do Corpo Eclesial de Compositores Litúrgicos do Setor de Música Litúrgica da CNBB. Assessora encontros de formação litúrgico-musical em diversas dioceses e comunidades no Brasil. É membro do Universa Laus desde 2016. Atua na animação litúrgico-musical na paróquia Santo Antônio do Bairro do Limão da Arquidiocese de São Paulo.

O canto litúrgico quaresmal

28 de Janeiro de 2016 Deixe um comentário

Eurivaldo Silva Ferreira

            desenho africano 54 001Cada ano a Igreja se une ao mistério de Jesus no deserto durante quarenta dias – quaresma -, vivendo um tempo de penitência e austeridade, de conversão pessoal e social, especialmente pelo jejum, a esmola e a oração, conforme o Evangelho de Mateus (Mt 6, 1-6.16-18), proclamado na Quarta-feira de Cinzas, em preparação às festas pascais. São cinco domingos mais o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, que inicia a Semana Santa, também chamada Semana Maior. É este um tempo forte e privilegiado, em que fazemos nosso caminho para a Páscoa, renovando nossa fé e nossos compromissos batismais, cultivando a oração, o amor a Deus e a solidariedade com os irmãos. Tal austeridade deve se manifestar no espaço celebrativo, nos gestos e símbolos, como também no canto e na música, para depois salientar a alegria da ressurreição, que transborda na Páscoa do Senhor[1].

            O canto e a música são elementos altamente simbólicos e pedagógicos. A música é parte essencial da existência da humanidade e modela, de certa forma, as culturas. Com música se celebram a vida e a morte, o trabalho e a festa, o riso e a dor… Entremeada ao tecnicismo, percebe-se na arte musical um momento de prazer, de encantamento, é como se fosse uma pausa restauradora que se faz através da musicalidade, do som e do canto. O número 112 da Sacrosanctum Concilium [SC] afirma que a música na liturgia tem foro privilegiado.

            A música litúrgica, revestida de seu texto poético e melodia, tem força de realizar aquilo que significa quando se coloca a serviço mesmo da liturgia, solenizando-a, e santificando a assembleia celebrante, por isso ela é o sinal sensível mais eloquente da assembleia celebrante (SC, 7, 112, 113). O canto, com uma melodia eficaz e uma poesia consistente e qualitativa, é capaz de exprimir a alegria do coração que vibra, ao ressaltar a importância da celebração, solenizando-a (Dies Domini, João Paulo II).

             No tempo da Quaresma, o canto litúrgico se reveste do luto, da ausência do “glória” e do “aleluia”, um canto sem flores e sem as vestes da alegria, um canto “das profundezas do abismo”, em que nos colocaram nossos pecados (Sl 130); um canto de quem suplica a misericórdia do Senhor (Sl 51,3)[2]. Por meio do canto litúrgico, a Quaresma então se traduz num itinerário em que o ‘errante’ se volta para Deus, escutando sua Palavra, abrindo o coração e deixando-se guiar por ele. Hoje, somos nós esses ‘errantes’, que queremos nos voltar a Deus, escutá-lo, e não mais proceder como assim o fizeram nossos antepassados. (cf. Sl 95/94,7-10). A estrada do Êxodo, da qual fala o Prefácio V da Quaresma, pela qual tomamos consciência de que somos povo da aliança, é o sinal de nossa caminhada quaresmal.

            Consideramos que, aguçando os sinais sensíveis do canto litúrgico quaresmal – melodia, ritmo, texto poético, imagens e paisagens, rimas e expressões – por meio de sua aplicação pedagógica, mesmo fora das celebrações – a comunidade se torna protagonista do evento da salvação, realizada por toda a caminhada quaresmal, e tendo sua culminância na Páscoa, espalhando suas ramificações ao longo de todo o ano litúrgico. Assim:

            O canto de Abertura das celebrações quaresmais cumpre o papel de criar comunhão, promover na assembleia um estado de ânimo apropriado para a escuta da Palavra de Deus[3], dando o clima da celebração e introduzindo a assembleia no mistério do tempo litúrgico, do domingo ou da festa[4], já que com suas características próprias convoca a assembleia e, pela fusão das vozes, junta os corações no encontro com o Ressuscitado[5].

            Pelo canto do Ato Penitencial aclamamos o Senhor como Kyrios e imploramos a sua misericórdia. A fórmula 3 do Missal Romano contém diversas aclamações próprias para o tempo da Quaresma[6]. O canto dessas partes constitui o próprio rito, é ocasião específica em que a assembleia toma sua parte no conjunto dos cantos da celebração, motivada pelo animador, alternando entre grupo de cantores ou solistas, como é o caso do Kyrie eleison e do Cordeiro de Deus, da família das ladainhas, ou ainda responde cantando em uníssono a exortação de quem preside: Eis o mistério da fé! Anunciamos, Senhor… Dependendo da forma e do arranjo, a melodia dessas partes proporciona uma participação mais exaustiva, como é o caso do Hino de Louvor e do Santo, cantos que são constituídos de louvores, súplicas e júbilos ao Cristo e ao Pai. Em outro contexto se situa o canto das respostas da Oração Eucarística, essas pequenas intervenções possuem caráter de aclamação e carece que toda assembleia participe.

            O canto do Salmo responsorial constitui um comentário lírico-poético da primeira leitura. Ocupa um espaço significativo como resposta por dois motivos: porque é escolhido para responder à Palavra de Deus proclamada, sendo a própria Palavra, prolongando, assim, seu sentido teológico-litúrgico e espiritual. Este prolongamento vai se dando enquanto o(a) salmista entoa as estrofes como solista e a assembleia repete o mesmo refrão, num uníssono[7]. É por isso que é chamado de responsorial. É um canto sem “malabarismos” melódicos, contudo seja entoado ao ritmo da palavra e da poesia, “cantilado”. Não pode ser omitido, haja sempre a forma cantada ou proclamada. Pelo canto do Salmo e pelo silêncio o povo se apropria dessa Palavra de Deus e a ela adere pela profissão de fé. O canto favorece a compreensão do sentido espiritual do salmo e contribui para sua interiorização[8].

            Pelo canto da Aclamação a assembleia dos fiéis acolhe e saúda o Senhor, que lhe falará no Evangelho. Omitindo-se a expressão “Aleluia”, este canto louva o Verbo de Deus, que nos tirou das trevas da morte, introduzindo-nos no reino da vida. Além de acompanhar a procissão do livro dos evangelhos (evangeliário) até a estante da palavra, este canto prepara o coração dos fiéis para a escuta atenta d’Aquele que só tem a nos dizer “palavras de vida eterna” (cf. Jo 6,68) [9]. O solista ou o grupo de cantores entoa o versículo do domingo respectivo.

            O canto que acompanha a Procissão das Oferendas se prolonga pelo menos até que os dons tenham sido colocados sobre o altar. Pode se prolongar também durante o recolhimento das ofertas da comunidade, mesmo sem a procissão dos dons. Sua finalidade consiste em dar um maior significado à coleta, criando um clima de alegria, de generosidade, de louvor, de bendição pelos dons, todavia seu texto não precisa falar necessariamente de pão e de vinho, muito menos ainda de oferecimento ou oblação[10]. Como não é um canto obrigatório, estamos cada vez mais conscientes de que o mais importante é o canto de quem preside, por isso na apresentação do pão e do vinho este entoa em voz alta as fórmulas da bênção, às quais o povo aclama cantando “Bendito seja Deus para sempre”. No entanto, nada impede que um solo instrumental seja executado antes do canto da presidência[11], o que pode ser uma das raras oportunidades para o organista virtuoso, ou o violonista, ou flautista habilidoso, ou ainda um conjunto de câmara, executarem uma peça musical propícia ao momento ritual[12].

            O canto da Comunhão acompanha a procissão daqueles que se dirigem à mesa da comunhão. Tem início quando quem preside comunga, prolongando-se enquanto os fiéis comungam, até o momento que pareça oportuno. Este canto, que retoma sempre o sentido do Evangelho do dia, deve ser cantado por toda a assembleia, expressando pela união das vozes a união espiritual daqueles que comungam, demonstrando ao mesmo tempo a alegria do coração e tornando mais fraternal a procissão dos que vão avançando para receber o Corpo e o Sangue de Cristo[13]. Se não for cantado, vale aqui a mesma orientação aos instrumentistas dada para a procissão dos dons. Os instrumentos podem ainda fazer interlúdios entre as estrofes e o refrão, por se tratar de um dos cantos mais longos da celebração[14].

            Sinal sensível da assembleia pascal são os instrumentos musicais, por isso seu som durante o tempo da Quaresma é reservado apenas para sustentação da afinação do canto da assembleia e de quem a anima, por aí entendemos o motivo de reduzirmos o volume e a quantidade de instrumentos musicais, assim favorecendo o silêncio contemplativo em momentos propícios nas nossas assembleias litúrgicas (Carta preparatória para as festas pascais, nº 17). Que os microfones sejam reservados apenas àqueles que executam solos ou sustentem o canto da assembleia[15]. Os ministros músicos, tendo em vista sua sensibilidade e dedicação litúrgica, devem particularmente prestar atenção a essa orientação.

            Os ministros que ornamentam o espaço litúrgico devem também se apropriar dessa índole quaresmal. A ausência de flores e folhagens é a expressão de uma espera vigorosa pela páscoa que se aproxima, com todo seu esplendor e colorido. De fato, a Igreja nos educa na fé, nesse grande itinerário pedagógico que é o ano litúrgico, por isso o vazio, a ausência desses sinais que são sensíveis ao nosso sentido, e ao mesmo tempo visíveis, fazem com que todo nosso corpo participe e se aproprie das características específicas do tempo da Quaresma, reservando as alegrias que eles nos proporcionam para aquela esperada noite da Vigília Pascal, e prolongando-as durante todo o tempo pascal[16].

            No Brasil, é costume expressarmos nosso gesto exterior da Quaresma com os apelos que a Campanha da Fraternidade nos suscita: “Casa comum, nossa responsabilidade”, com o lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca (Am 5,24)” – CF 2016. Tendo em vista sua característica ecumênica, no CD gravado não foram contempladas músicas litúrgicas para as celebrações eucarísticas do tempo da Quaresma [cinco semanas e o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor]. Havendo, por exceção, celebrações ecumênicas ao longo deste tempo, é recomendado o uso das canções contempladas no CD[17].

            Para facilitar a todos quantos se dedicam ao ministério da animação do canto e da música em nossas comunidades, aos instrumentistas, salmistas e integrantes de grupos vocais e instrumentais, preparamos em anexo uma tabela com as sugestões propostas pelo Hinário Litúrgico da CNBB, bem como outras composições aprovadas pelo Setor de Música Litúrgica da CNBB e outras gravações, além de cantos tradicionais próprios deste tempo.

            Contudo, o bom músico litúrgico saberá tirar de seu baú aquelas composições que tão bem retornam neste tempo, às quais lhe expressam o sentido característico com seu conteúdo, temas, a Palavra de Deus, enfim, o aspecto do mistério pascal que celebramos. É preciso saber escolher bem os cantos, que acentuem a conversão, a misericórdia, o perdão, a fraternidade e solidariedade, a vida, a luz, inspirados no Evangelho do dia, mas sempre com os horizontes voltados para a Páscoa de Jesus, mistério central que celebramos em nossas liturgias. Cantos tradicionais e que já estão na memória do povo, devem fazer parte do repertório: Pecador, agora é tempo… O vosso coração de pedra… Prova de amor maior não há…[18]

                Pensemos então que a Quaresma é um ‘tempo de teste’ para nossa fidelidade na resposta ao plano de Deus. Mas, por vezes esquecemos que somos batizados, e por isso perdemos a direção. É justamente aí que este tempo nos propicia um desejo de renovar e reavivar em nossos corações as disposições com que, durante a Vigília Pascal, pronunciaremos de novo as promessas do nosso batismo. As leituras que ouviremos durante esse tempo nos recordam que somos seres batismais, em constante conversão (característica das leituras da Quaresma do Ano C).

            Enfim, viver a Quaresma é saborear o difícil itinerário da passagem da morte para a vida. Sabemos que passamos da morte à vida se amamos os irmãos (cf. 1Jo 3,14). Sobretudo, devemos lembrar que somos discípulos/as de Jesus, que superou o fracasso humano da cruz com um amor que vence a morte, e que, de nossa parte, o jejum e a caridade, traduzidos na solidariedade fraterna em favor do/a outro/a, do mundo, do planeta e do cosmos – conforme nos lembra a Campanha da Fraternidade deste ano – nos colocam nesse mesmo patamar de Jesus, que, intensificando seu desejo de amar até o fim, passou pelo mal, vencendo-o.

            Juntemos o nosso desejo ao de Jesus. Assim, como diz a regra de São Bento, com a alegria do Espírito Santo e cheios do desejo espiritual, esperemos a santa Páscoa.

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[1] Kolling, Ir. Miria T., em artigo produzido para subsídios litúrgicos.
[2] Veloso, Reginaldo. Introdução ao Hinário Litúrgico da CNBB, Volume II – Ciclo da Páscoa, São Paulo: Paulus, pág. 7.
[3] CNBB. A Música Litúrgica no Brasil (Estudos da CNBB nº 79, 1998). São Paulo: Paulus, 2005 (Documentos sobre a música litúrgica), pp. 135-136.
[4] CNBB. Animação da vida litúrgica no Brasil (Documentos da CNBB nº 43, 1989). 21ª edição. São Paulo: Paulinas, 2008, pp. 83-84.
[5] CNBB. A Música Litúrgica no Brasil (Estudos da CNBB nº 79, 1998). São Paulo: Paulus, 2005 (Documentos sobre a música litúrgica), pp. 135-136; cf. SC, 112.
[6] O CD “Partes fixas – Ordinário da Missa”, gravado pela Paulus, com melodias do Hinário Litúrgico da CNBB, possui várias possibilidades de se cantar essas partes que compõem o próprio rito (Senhor, tende piedade, Santo, Aclamação memorial, Amém e o Cordeiro de Deus, que acompanha a fração do pão).
[7] Fonseca, Joaquim. Ofm. Cantando a missa e o ofício divino. São Paulo: Paulus, 2004, pág. 26 (Coleção Liturgia e Música 1).
[8] Idem.
[9] Idem, pág. 32.
[10] Idem, pág. 34.
[11] Idem.
[12] Quanto ao uso dos instrumentos musicais, vale a pena consultar a orientação dos Estudos da CNBB, nº 79, A música litúrgica no Brasil, às págs. 115-118.
[13] Cf. Missal Romano (2002),  86, opus cit. in Fonseca, Joaquim. Ofm. Cantando a missa e o ofício divino. São Paulo: Paulus, 2004, pág. 60 (Coleção Liturgia e Música 1).
[14] Quanto ao uso dos instrumentos musicais, vale a pena consultar a orientação dos Estudos da CNBB, nº 79, A música litúrgica no Brasil, às págs. 115-118.
[15] Cf. Carta aos agentes da música litúrgica, CNBB, setembro/2008.
[16] Dois subsídios interessantes para aprofundamento desse tema são os livros de Ione Buyst, Símbolos na Liturgia, Ed. Paulinas, 1998 e Celebrar com símbolos, Ed. Paulinas, 2001.
[17] O Texto-base da CF 2016, pág. 65-74, traz uma bonita sugestão de celebração ecumênica, inclusive citando canções próprias desta CF e de outras campanhas ecumênicas já realizadas no Brasil.
[18] Kolling, Ir. Miria T., em artigo produzido para subsídios litúrgicos.

25º CELMU aconteceu na capital de São Paulo

25 de Janeiro de 2016 Deixe um comentário

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De 5 a 15 de janeiro aconteceu na capital de São Paulo o Curso Ecumênico de Formação e Atualização Litúrgico-musical (CELMU), promovido por várias entidades que dialogam na dimensão ecumênica e com o apoio do Setor de Música Litúrgica da CNBB.

O curso é realizado em três etapas que duram 10 dias cada, sempre no mês de janeiro, com entrega de certificados. Há também a possibilidade da realização de uma 4ª etapa para aqueles que já o concluíram e desejam aprofundamento e reciclagem. A edição comemorativa de 25 anos neste ano contou com mais de 100 participantes de várias regiões do país, e aconteceu no Colégio Cristo Rei, na Vila Mariana.

O CELMU quer dar oportunidade à criação de momentos e espaços favoráveis para o conhecimento e o fazer litúrgico-musical. É oferecido a pessoas que se dispõem a serem, de alguma forma, multiplicadores e animadores da formação litúrgico-musical nas bases. Ele quer fomentar a formação para a música litúrgica, auxiliando as comunidades do Brasil, a fim de que possam expressar cantando uma música que ajude a vivenciar o Mistério Pascal, força propulsora da própria música litúrgica, presente e celebrado nos diversos momentos do Ano Litúrgico nas diversas comunidades e congregações cristãs que se unem em suas assembleias no Dia do Senhor.

Com um corpo docente qualificado que atua nas diversas áreas da música em suas comunidades cristãs e na academia, o curso tem como teor e proposta o cuidado de um modo permanente da formação litúrgico-musical, a fim de garantir um cantar litúrgico autenticamente eclesial, belo, vibrante e significativo da riqueza insondável do Cristo e de seu mistério pascal, cantado como objeto da fé de inúmeras comunidades cristãs.

Várias matérias fazem parte da grade do curso, como Canto Coral, Canto Gregoriano, Educação Musical (Musicalização),  Harmonia e Contraponto, História da Música na Liturgia Cristã, Iniciação Musical (Metodologia para o ensino), Liturgia, Percepção Musical, Prática Instrumental, Prosódia, Regência, Cultura Popular, Técnica Vocal e Teoria Musical.

Mais informações podem ser obtidas através dos seguintes endereços eletrônicos: www.celmu.com.br e secretaria@celmu.com.br, com Maristela, ou ainda através do Setor de Música da CNBB: musica@cnbb.org.br.

10º Encontro de Compositores da CNBB – Edição 2015

25 de Janeiro de 2016 Deixe um comentário

Encontro compositores 2015 066

O Setor de Música Litúrgica da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB promove um encontro anual e convida compositores, músicos instrumentistas e letristas da música litúrgica de diversas regiões do Brasil que se dedicam à criação e à divulgação da música litúrgico-ritual. São pessoas dedicadas à música e à arte das palavras, as quais cantam o mistério pascal nas diversas comunidades do Brasil.

A necessidade urgente de um aperfeiçoamento litúrgico-musical na técnica da composição, na qualificação de uma música litúrgica enraizada na cultura brasileira e o bom êxito dos encontros anteriores são os principais fatores que encorajam a CNBB, através da Comissão Episcopal para a Liturgia, neste processo, cujo objetivo é:

Promover a formação litúrgico-musical de compositores e letristas com as competências requeridas à formação e ao desenvolvimento de um grupo comprometido com a referida música no Brasil, dentro de parâmetros estéticos, teológicos, litúrgicos, pastorais, técnicos e culturais;

Proporcionar que estes se tornem multiplicadores em suas regiões

Fomentar a formação para a música litúrgica, auxiliando as comunidades do Brasil, a fim de que possam cantar uma música que as ajudem a vivenciar o Mistério Pascal, força propulsora da música litúrgica, presente e celebrado nos diversos momentos do Ano Litúrgico.

Faz parte das exigências da participação deste encontro a condição de que estes, sendo compositores, músicos ou letristas, já atuem como multiplicadores em suas dioceses ou regiões, os quais são apresentados a cada edição à Equipe de Reflexão do referido Setor. Para esta edição, são esperados cerca de 40 participantes.

Como em todas as edições, é trabalhado um tema relevante que contribua para a prática da construção de um canto litúrgico-ritual, genuíno, nascente da cultura musical brasileira. Especialmente nesta edição o tema a ser desenvolvido será: Canto e música nos ritos de iniciação cristã: catecumenato e batismo. O tema, permeado de seu aspecto antropológico, pastoral e teológico, é contemplado com subsídios teóricos e práticos, voltados para a elaboração de outros cantos litúrgicos, também valorizando aquele repertório já existente [Hinários Litúrgicos, por exemplo], pelo qual, ensejando conhecimento e técnicas de composição, ajuda a desenvolver um plano de formação litúrgico-musical, estimulando o surgimento de novas composições  que preencherão lacunas ainda existentes no repertório litúrgico da Igreja no Brasil, como que num “mutirão”.

Encontro compositores 2015 021

Com essa proposta, o encontro desenvolve sua metodologia sempre a partir de três eixos temáticos: a Liturgia, a Música e a Cultura brasileira, que são abordados, discutidos e refletidos em palestras, exposições ou em rodas de conversa, assim como a aplicação prática entre os participantes, por isso sempre é assessorado por músicos profissionais, liturgistas qualificados e convidados especialistas no assunto, tudo sob a coordenação do Assessor da CNBB da Música Litúrgica, com a ajuda da Equipe de Reflexão.

A continuidade deste processo ainda permanece como perspectiva do Setor de Música Litúrgica da CNBB, e a ideia da criação e manutenção de um Corpo Eclesial de Compositores da Música Litúrgica implica numa consciência eclesial, a de se trabalhar como Igreja, tendo em vista a unidade na diversidade, principalmente quando se trata de música litúrgica.

Não é mais possível se conceber que pessoas ligadas à formação litúrgico-musical, sendo compositores, poetas, letristas ou músicos, permaneçam isoladas do contexto daquela expressão requerida pelos documentos da música litúrgica da Igreja no Brasil, desperdiçando seus talentos, mas sim, se apropriem de um caminho metodológico, colocando-se, com suas produções, à disposição da Igreja, trabalhando juntas, somando talentos, criando-se uma cultura, tendo uma liberdade na caridade, sem bloqueio e sem barreiras.

Nesta Igreja em que todos os compositores litúrgicos estão inseridos, todos e todas têm as mesmas alegrias e esperanças, como se fosse um só coração e uma só alma. Afinal o que é a liturgia senão a memória viva de Jesus Cristo, congregados no Espírito Santo?

Vivendo o Tempo da Quaresma como itinerário pedagógico da fé

13 de Fevereiro de 2013 Deixe um comentário
imagem extraída do site: www.heqigallery.com

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Eurivaldo Silva Ferreira

Introdução

Ao tomarmos o Tempo da Quaresma que logo iniciaremos com a celebração das Cinzas como itinerário pedagógico da nossa fé, pensamos que este tempo é-nos colocado como sacramento, o que define seu pano de fundo teológico.

A visão externa deste sinal decorre em duas atitudes: roteiro para uma mudança de vida (nas atitudes de conversão), apelo para o retorno ao apelo inicial da fé (o fato de reconciliar-se). Contudo, a Igreja, ao celebrar este tempo, conclama que a reconciliação consiste em experimentar este sacramento também como celebração.

O Tempo da Quaresma se torna então uma oportunidade para experimentarmos o apelo ao marco inicial da fé, experimentado pelo batismo, já que esse aspecto foi-se perdendo durante a história. Lembramos que o Ritual da Penitência prevê até uma celebração penitencial para as comunidades que não têm ministros ordenados.

O fato é que, sempre nos tempos litúrgicos, somos convidados a reconciliar-nos conosco, com as pessoas, com o mundo, com o cosmos, mas de uma maneira mais pedagógica a Igreja nos propõe um itinerário, cujo caminho é recheado de elementos simbólicos, bíblicos e espirituais. No próprio Missal Romano há duas Orações Eucarísticas que trazem no seu bojo o tema da reconciliação (Oração Eucarística VII e VIII, cf. Missal Cotidiano, Missal da assembleia cristã, pp. 568-573).

Nesse sentido, analisemos então como o itinerário da Quaresma nos conduz à reconciliação, de forma pedagógica, a fim de celebrarmos na alegria de irmãos e irmãs a Páscoa de Jesus, aliada à nossa páscoa.

 

Ano Litúrgico como realidade que abarca todo o mistério pascal

Em todo Ano Litúrgico a Igreja celebra a realidade do mistério pascal, tendo como centro a ressurreição do Senhor. Este mistério é celebrado tanto nos ritmos diário (Ofício Divino), semanal (Eucaristia no Domingo), como também é lembrado de forma solene e festiva uma vez por ano (Tríduo Pascal).

O Ano Litúrgico se desenvolve em torno de dois grandes mistérios da vida de Jesus: sua encarnação (Natal) e sua páscoa (Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão). Todos os outros aspectos da vida de Jesus são um desenrolar desses dois, e são contemplados também ao longo dos outros tempos litúrgicos (Tempo Comum, Festas do Senhor, Santos e Santas de Deus, Festas dedicadas a Maria, Mãe do Senhor). Por isso podemos dizer que no ciclo do Ano Litúrgico vivemos de forma simbólico-sacramental as várias faces de um único mistério de Jesus. Para São Leão Magno, o que foi vivenciado no tempo de Jesus pelos que o seguiam, passou-se agora para os mistérios, que continuam operantes na Igreja mediante a celebração litúrgica, ocasião em que a comunidade vivencia tal realidade através da ação ritual, isto é, a comunidade experimenta hoje aquilo que se passou no tempo de Cristo.

 

Quaresma: origem, sentido e propostas

O Domingo, o Dia do Senhor, era a referência celebrativa das comunidades primitivas. A páscoa anual nasce somente na metade do séc. II, como um domingo maior. Em torno disso se desenvolve o tríduo e os 50 dias da páscoa. O pentecostes é mais primitivo que a quaresma, tendo sua origem na liturgia judaica e fundamentada no AT.

A quaresma se desenvolve somente no 4º século. Já no 3º século se faziam os batismos na vigília pascal e ela nasce como um tempo mais intensivo de preparação dos catecúmenos, assim como nasce com ela um motivo de preparação dos penitentes que haviam relaxado no caminho de batizados, a fim de que voltassem à fonte do batismo. É considerada então na liturgia como um tempo intenso de preparação para a festa da páscoa do Senhor.

Na tradição romana, a Quaresma é marcada pela celebração de dois sacramentos pascais por excelência: Batismo e Eucaristia. Este conceito está presente na introdução do rito da Renovação das Promessas do Batismo. A fundamentação bíblica nós encontramos na Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 6: viver uma vida nova / sepultados com Cristo / evento batismal como participação na morte e ressurreição de Cristo (tema da 7ª leitura na noite da Vigília Pascal); também em Colossenses 3,1-4: buscar as coisas do alto e não da terra / vida nova com Cristo, em Deus. São Paulo insiste que a vida é um dom de Deus, por isso devemos ter uma postura de convertidos.

Portanto, no Tempo da Quaresma, vivido como itinerário pedagógico na conduta da fé, consequentemente de uma espiritualidade que desagua em fazer-nos convertidos, encontramos as seguintes propostas:

– de voltarmos a uma atenção geral ao mistério pascal (viver conforme vive quem é ressuscitado);

– de percorrermos um itinerário batismal (para os que ainda não estão inseridos na comunidade);

– de correspondermos a uma vida pautada na ética e na comunhão com os outros, isto é, colaborando no plano do Reino, em paz com o mundo, com os outros e com o cosmos, em atitude de respeito e cooperação (mudança de vida implica em vida comunitária, isto inclui também a atitude ecológica, o respeito ao planeta);

– de apoiarmos nossa caminhada num caráter todo cristológico e pascal (que permeia todos os outros tempos litúrgicos);

De nossa parte, é preciso também observarmos que este itinerário quaresmal:

– implica em graça, por parte de Deus, e da nossa parte um esforço para tentarmos viver e permanecer nessa graça.

– consiste em vivermos um grande retiro, deixando que a Palavra de Deus nos questione, trazendo luz naquilo que necessita de conversão.

– exige de nossa parte uma renovação das promessas, num constante desejo de vivermos uma vida nova e de permanecer nesta vida nova.

 

Da liturgia para a vida

Claro que cada um vai confirmando e traçando seu itinerário próprio também de acordo com seus propósitos, sobretudo delineados em forma de pequenos gestos e atitudes exteriores, como abster-se de algum alimento ou dar mais atenção a determinado aspecto de sua vida. Esse se torna então um caminho da graça, isto é, crescer na intimidade com o Senhor, mover nosso afeto, reconfigurando-se aos afetos do Senhor, como uma obra de transformação, que também se desdobra em atenção ao outro, ao próximo.

Lembramos que graça vem de gratuidade, é dom do próprio Deus, ela não se alcança, como costumamos observar em faixas e cartazes perto de santos de devoção popular (“agradeço a santo/santa… pela graça alcançada”).  O mecanismo da graça, se é que podemos falar assim, exige que nos moldemos àquilo que Deus mesmo quer, só assim ela será perceptível.  Jesus mesmo, quando criança, crescia em graça, sabedoria e estatura diante de Deus, diz o evangelho de Lucas (Lc 2,40; 2,52).

Enquanto não conseguimos nos amoldar neste estado de graça, a Igreja, com sua liturgia, nos dá uma forcinha, uma espécie de empurrãozinho. Esta maneira de a Igreja conduzir de forma pedagógica nossa existência para uma espiritualidade sadia, nós encontramos na liturgia, com sua força simbólico-sacramental. Por isso, no Tempo da Quaresma, a liturgia nos convida a:

– voltarmos o olhar à necessidade de um resgate de uma espiritualidade que contenha um dinamismo pascal. O simbolismo no número 40 durante o tempo quaresmal lembra um tempo de preparação para um grande acontecimento salvífico: luta, expectativa, esforço penitencial, em que no fim tudo encontra vida. Na Bíblia o número 40 está destacado em várias etapas do povo judeu, também em Jesus, quando vai para o deserto ser tentado pelo demônio.

– compreendermos que no simbolismo do número 40 também são os dias em que a mãe, logo após ter dado a luz, passa pelo período chamado de “resguardo” ou “quarentena”, isto é, de retomada ao estado natural de sua vida, já que, com a gravidez e o parto, ela sofreu uma grande transformação.

– nos empenharmos num grande desejo de transformação pessoal, tanto pelas atitudes internas (espirituais) quanto externas (sociais).

 

Atitudes externas que têm a ver com o comunitário

Se as atitudes internas nós podemos buscar na liturgia, como já dissemos, as atitudes externas são também um desejo de a Igreja nos orientar para um despertar de nosso corpo, a fim de que vivamos com mais intensidade aquilo que experimentamos na alma, fazendo ressoar em gestos externos, mesmo que sejam ainda pequenos, mas que ganham sentido importante quando são transignificados na sua corporeidade. Essas atitudes, o jejum, a o oração e a caridade são como que práticas de quem quer viver de acordo com os planos de Deus.

– A oração, porque é um dos pilares da fé. Principalmente a oração em comunidade pode ser colocada em relevo neste tempo.

– A caridade, traduzida pela esmola, porque é uma recomendação, principalmente porque a fé sem obras é morta. No ato da caridade todos podem também usufruir das alegrias pascais que é desejo de Deus, portanto ninguém se prive do desejo de Deus e dos dons pascais.

– O jejum, para que o corpo, sacrificando-se, possa com mais intensidade esperar pela páscoa. É apenas um sinal visível para despertar em nosso corpo a alegria de festejar a páscoa, que é a festa dos dons em abundância. O jejum também pode ser visto como uma ação de ir ao encontro dos outros, configurando o coração a Deus. Para Pedro Crisólogo, Pai da Igreja do século V, o jejum deve ser regado pela misericórdia, ou seja, misericórdia é consequência do jejum. Assim, para os primeiros cristãos, tornar-se solidários aos outros era uma atitude de tornar misericordioso ao outro, pois privar-se de algo para alimentar a outros é um sacrifício agradável a Deus. Assim, os alimentos não consumidos no jejum destinavam-se à esmola e à caridade a quem mais necessitava.

 

Quaresma, penitência e cinzas

É também no período da Quaresma que ouvimos falar muito do termo ‘penitência’, ou ‘atitudes penitenciais’. A penitência é nosso esforço permanente e concreto, numa espécie de crescimento interno, o que se faz mediante a graça, que nos modela e nos torna à estatura do próprio Cristo. Neste crescimento, que também podemos chamar de ascese[1], encontramos todo esforço para deixar paixões desenfreadas e mantermo-nos na sobriedade e no equilíbrio. São recomendações da Igreja para este tempo, sobretudo lembradas nas orações de Coleta dos domingos da Quaresma.

No tempo da Quaresma, três elementos presentes dão o sentido específico do tempo de como se deve viver o mistério pascal. Esses elementos compõem-se como sendo o ‘pano de fundo’ do tempo quaresmal: o pecado público, as cinzas e o fogo.

Nas comunidades primitivas, os primeiros cristãos, quando cometiam algo grave, eram expulsos da comunidade. Parece-nos que os pecadores ou penitentes públicos se colocavam entre estes, por isso, sua característica em penitenciar-se. Os chamados penitentes públicos costumavam-se cobrir de cinzas do lixo. Era um sinal visível do penitente expressando a ideia de que algo foi queimado, isto é, somos transitórios aqui na nossa existência, por isso aquilo que não presta, o lixo, deve ser queimado, ser deixado para trás. Na quinta-feira da última semana da Quaresma, o bispo os acolhia, apresentavam-se à comunidade e participavam da celebração da Ceia do Senhor. Não eram mais considerados ‘excomungados’ e retornavam ao sei da comunidade cristã. Nas Constituições Apostólicas há relatos de orações sobre os penitentes durante a liturgia, e assim que isso acontecia, eram convidados a retirar-se do templo.

Hoje, usamos simbolicamente a queima das cinzas dos ramos usados na celebração do Domingo de Ramos para a celebração na Quarta-feira de Cinzas do ano seguinte, o que expressa essa ideia de passado, transitório. Pelo fogo, a purificação e a destruição do galho (simbolizando nossa existência, galho que seca).

 

Os temas dos ciclos do Ano Litúrgico

No Ano Litúrgico as etapas de preparação para a Páscoa do Senhor se apresentam pedagogicamente nos cinco Domingos da Quaresma, representadas nos anos A, B e C:

– Nos Anos A e B: o itinerário permite-nos compreender nossa participação no mistério de Cristo.

– No Ano C: a atitude de conversão do pecador e a misericórdia de Deus para com ele, fazendo-o experimentar essa mesma misericórdia.

Essas características convergem uma para as outras, como num ciclo. Seria interessante fazermos um passeio pelas leituras dos Evangelhos dos ciclos do ano A, B e C e descobrirmos os quatro elementos: 1) participação no mistério pascal de Cristo, 2) conversão, 3) misericórdia de Deus e 4) experiência da misericórdia de Deus.

A participação no mistério pascal está bem presente e latente nos textos dos prefácios deste tempo, bem como de outros tempos litúrgicos. Encontramos, por exemplo, a afirmação de São Leão Magno: ‘em Adão todos morreram, em Cristo todos reviverão’. São Basílio nos lembra da imitação de Cristo, por ele nós fomos adotados pelo Pai.

 

Quaresma, iniciantes na fé e comunidade de batizados

No ciclo do Ano A aparece como pano de fundo o tema sacramental e batismal, pelo qual permite-nos compreender a realidade da nossa vida de fé: iniciação à vida cristã. Os textos dos exercícios batismais ou escrutínios, presentes no RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos) deixam bem claro essa ligação com aquilo que o catecúmeno deve viver com a temática desenvolvida nos evangelhos de João dos Domingos 3º ao 5º (Revelação pessoal, Luz do mundo e Ressurreição e Vida): o Senhor faz passar da morte para a vida. celebrando este ciclo, olhamos para aquilo que são os compromissos do batizado e consequentemente renovamos (fazer memória).

Quando falamos de Quaresma não podemos esquecer do primeiro aspecto de sua origem: preparação dos catecúmenos para o recebimento dos sacramentos da iniciação cristã, os chamados sacramentos iniciais de inserção na comunidade de fé. Estes são exortados na 4ª semana da Quaresma, ocasião em que recitam o Credo e o Pai Nosso. São também encorajados a permanecerem numa luta constante contra o mal (orações de escrutínios e exorcismos), tendo como arma o próprio Jesus. O caminho de conversão apresentado então a estes catecúmenos é simbolizado por um tempo de reconciliação.

No ciclo do Ano B três temáticas são desenvolvidas: Domingo 3: Templo vivo; Domingo 4: Exaltação gloriosa – tipologia do deserto; Domingo 5: Grão de trigo – morrer para gerar uma vida superabundante.

Já o ciclo do Ano C as temáticas apresentam um itinerário mais ligado à questão penitencial: Domingo 3: Figueira estéril; Domingo 4: Filho Pródigo; Domingo 5: A mulher adúltera. O itinerário pedagógico-espiritual apresentado neste ciclo é o de que todos devem buscar uma plena reconciliação com Deus e com o próximo.

 

Conclusão

De tudo isso que já vimos o que é importante destacar é que na vida nós vamos perdendo a identidade de batizados. Não somos batizados para simplesmente pertencermos a uma comunidade de fé. Isso é pouco, mas a comunidade de fé é um sinal para vivermos nosso batismo.

O que se quer recuperar com esse caminho pedagógico-espiritual é a conversão e o arrependimento, só daí então poderemos viver como batizados. É o que São Paulo recomenda e pergunta à comunidade e a nós em sua Carta aos Romanos (7ª leitura da Vigília Pascal – perda da identidade de batizados). Neste sentido, a solicitude da Igreja em buscar os pecadores para seu seio se conforma com o período quaresmal.

Tendo esses elementos acima como temas do tempo da Quaresma, é então pertinente falar de reconciliação. A respeito deste tema trataremos em outro texto.


[1] Ascese: é um termo teológico o qual designa o esforço que todo cristão faz, aberto à graça de Deus, para deixar que esta mesma graça atue em sua vida. Não é voluntarismo, sobretudo é a partir de nossa limitação que nos abrimos à graça. É uma atitude de querer vencer. É como o cego que encontra com Jesus e diz: ‘Senhor, eu quero ver’.

Enxugar a missa

11 de Fevereiro de 2013 Deixe um comentário

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Interessante crônica de Dom José Maria Maimone, bispo emérito de Umuarama, PR, sobre sua visão de como andam nossas celebrações litúrgicas. Ele conclama que os padres façam uma espécie de avaliação, e sugere que os presbíteros filmem uma de suas missas para ver depois qual é o termômetro da celebração, para depois “enxugar” aquilo que deve ser enxugado. Percebo que nas entrelinhas de seu texto há uma chamada de atenção para a centralidade do mistério que ali é celebrado, sendo sua atenção desfocada para outros sentidos. Não está bem propícia aos dias de hoje? E o que teremos a dizer das missas transmitidas pela TV? Merecia outra crônica, não? Boa leitura.

extraído de: http://www.cnbb.org.br/site/articulistas/dom-jose-maria-maimone/11339-enxugar-a-missa

Dom José Maria Maimone
Bispo emérito de Umuarama (PR)

Alguns Padres deveriam filmar suas Missas, depois, calmamente e atenciosamente assistir.

O que eles veriam?

Veriam os fiéis conversando enquanto o comentarista lê a interminável lista de intenções. Veriam que ninguém acompanha a introdução do folheto indevidamente inflacionada pelos acréscimos cometidos pela equipe de liturgia, que acrescentam, por sua conta, inúmeras outras intenções.

Veriam uma procissão de entrada ao som de música barulhenta, cobrindo a voz dos cantores. Aliás, com um tom que só o coro canta, enquanto a assembléia permanece muda, pois não conhece os cantos.

Veriam que o ato penitencial fala de pecados estruturais e macro-injustiças, ataca as multinacionais e as políticas globalizantes, mas não fala das bebedeiras do marido nem da preguiça da esposa, não se refere à desobediência dos adolescentes nem à safadeza dos moçoilas.

Quando a assembléia canta piedade, piedade, piedade de nós, canta da boca pra fora, pois sabe muito bem que seus pecados são outros…

Primeira leitura: Moisés caminha pelas areias do deserto, sob o sol causticante, enquanto os jumentos do Egito babam de calor.

Ali, bem diante do altar, um velhinho cochila e baba também. Dois bebês (a quem as mamães deram os folhetos de missa para mascar) babam igualmente. Futuramente as alfaias incluirão babadouros para a assembléia.

Segunda leitura: Um leitor esforçado luta com os óculos para encontrar o foco adequado. O templo mal iluminado em nada ajuda em seu combate. O texto sai truncado, as frases sincopadas, as sílabas finais inaudíveis. A assembléia é salva pelo gongo. De pé, aplaudem o Livro Santo, enquanto o coral entoa um canto de Aclamação que não tem nenhuma aclamação. Por pouco não cantam: Ora, bolas!

O seu vigário lê o Evangelho. Tem boa voz, mas o volume do microfone está alto demais e alguns zumbidos de microfonia competem com a mensagem central.

Já sentados, os fiéis ouvem a homilia. Pela nave da igreja o que se vê: Dona Engrácia reza o terço, piedosa e contrita. Juca e Chico puxam as tranças de Dorotéia uma gracinha! Rafael, com menos de dois anos de idade, corre pelo corredor central, atraindo os olhares maternais das senhoras do Apostolado da Oração.

O pregador continua falando. Escapou do tema do Evangelho do dia e fez breves referências à Campanha da Fraternidade, à visita de Sua Excelência o Bispo diocesano, ao próximo Grito dos Excluídos, à campanha para construção da torre, além de pedir enfaticamente que se lembrem do dízimo no próximo domingo.

Percebe-se também que Dr. Edmundo não tira os olhos do relógio, pois já desconfia de que não terá tempo de ver a largada da corrida de Fórmula Um.

Então, Senhores Vigários, não precisam se preocupar em continuar avaliando, pois já deu para os Senhores terem plena convicção de que sua “liturgia” foi um desastre. Agora preparem-se para deitar. Talvez os Senhores consigam dormir…

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